Olhar mortífero

“Dupla Identidade” se ampara em trama enxuta e bom desempenho de Bruno Gagliasso como protagonista

iG Minas Gerais | geraldo bessa |

Desempenho. Atuação de Bruno Gagliasso na produção garante seriedade ao seu personagem
Globo
Desempenho. Atuação de Bruno Gagliasso na produção garante seriedade ao seu personagem

Sempre mais focada em séries de comédia, a linha de shows da Globo vem mudando sua estrutura nos últimos tempos. Só este ano, títulos como “Amores Roubados”, “A Teia” e “O Caçador” mostraram ao público uma variada carta de intenções, onde situações engraçadas cedem espaço para dramas psicológicos, perseguições e assassinatos. Entre as produções, a novata “Dupla Identidade” se destaca pelo peso do roteiro e o caráter mais arrojado das cenas. Figura presente no imaginário norte-americano, serial killers já foram retratados em séries como “Dexter”, “The Mentalist” e “Bates Motel”. No Brasil, um dos únicos elos da teledramaturgia com a temática foi “Noivas de Copacabana”, exibida em 1992. Atenta a isso, Glória Perez assume todas essas referências sem medo e se mostra certeira ao criar Edu, rapaz bonito, de classe média e acima de qualquer suspeita.

Nas mãos de um ator mediano, o protagonista poderia resultar tosco ao recorrer a inevitáveis caras e bocas. No entanto, com a ajuda de seus hipnóticos olhos azuis e cara de mocinho, Bruno Gagliasso aprofunda seu personagem, sempre atento ao texto, mas abusando do que está implícito nas idiossincrasias do papel. Conhecida pelas tramas soltas, flertes étnicos e mocinhos que não funcionam, em “Dupla Identidade” Glória Perez surge enxuta e coesa. A história tem seus momentos mais óbvios. Mas, por estar bem amarrada, acaba não subestimando o público-alvo deste tipo de produção, acostumado ao alto nível dos milionários roteiro norte-americanos. Além da rota de assassinatos com requintes de crueldade promovida por Edu, a autora ainda recorre a um contexto político e ambienta tudo sob o sol e as sombras de Copacabana, criando um background simpático e funcional.

Em sua estreia como diretor de núcleo de uma produção, Mauro Mendonça Filho exibe segurança e se esforça para inovar. Mas acaba recorrendo a um tratamento de imagem próximo ao de séries recentes como “A Teia” e “O Caçador”, abusando de uma fotografia que emula o cinema e valoriza as sombras e os tons mais frios. O diferencial do diretor se revela mais na dinâmica das cenas, entre sexo, mortes e autópsias: tudo parece bem ensaiado e construído. Outro ponto forte da direção reside na escolha de trilha sonora – trabalho autoral da banda Sepultura – e na escalação de atores. Na pele do delegado Dias, Marcello Novaes se mostra comedido e de acordo com o personagem, que não sabe se trabalha para desvendar os crimes ou foca em sua promoção para Secretário de Segurança do Rio de Janeiro.

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