Bardo do Bar: Bataclã

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acir galvao
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Estava andando à toa pelo centro da cidade e resolvi parar no Bataclã, mesmo supondo que ainda estivesse vazio, já que a clientela só costuma chegar um bocado depois da meia-noite. Com efeito, àquela altura estavam lá só os funcionários e a gerente Suely, que detrás do balcão dava ordens relativas à arrumação do lugar. Sentei-me ao balcão para trocar umas palavras com ela, com quem já construí uma relação de camaradagem. “Você se lembra do Homem-Rato?”, Suely perguntou, enquanto arrumava as bebidas na prateleira. “Vagamente”, respondi, “era um sujeito que morava nas margens do rio Arrudas, nas galerias que despejam o esgoto no leito, aqui na região central mesmo”, completei. “Esse aí. Me recordo que há uns 15 ou 20 anos o Homem-Rato chegou a ser notícia. Saíram, mais ou menos numa mesma época, várias matérias a respeito dele, sobre a condição sub-humana em que vivia e também sobre o fato de, apesar disso, sobreviver”, emendou a gerente, antes de uma breve pausa em que pareceu pensativa. “É de se imaginar que ele comia muito mal ou não comia, e ainda assim, me lembro muito bem, era um sujeito enorme, grande e gordo. Eu já trabalhava aqui no centro na época e o vi algumas vezes. À noite ficava vagando por aí, próximo à mureta do rio e nas quebradas da zona boêmia, seminu, só com uma cueca encardida e o corpanzil cheio de craca”, dizia, antes de interromper as reminiscências para ordenar ao Juvêncio que arrumasse as mesas próximas ao palco do karaokê. “Desde aquela época nunca mais se ouviu falar dele”, prosseguiu, “deve ter morrido, é o mais provável. Ou não”, disse, forçando uma expressão misteriosa. Fiquei curioso, não falei nada, mas fiz cara de quem estava muito interessado. Suely não se fez de rogada: “Ouvi recentemente, de uns dias pra cá, umas cinco ou seis pessoas, gente que fica vadiando por aí de madrugada e também algumas prostitutas aqui da área, falando que viram uma espécie de monstro ou assombração, uma pessoa ou um bicho, ninguém soube dizer com certeza, andando nas margens do rio, na escuridão, sob os viadutos do complexo da Lagoinha. Dizem que essa coisa é bem grande, coberta de pelos da cabeça aos pés, e que foge em disparada quando percebe que foi vista. Ouvindo essas histórias, me lembrei do Homem-Rato. Fico pensando se não seria ele, que, afinal, teria sobrevivido todo esse tempo nos esgotos que desembocam no Arrudas e, pelo contato com detritos de toda ordem, químicos inclusive, não teria sofrido algum tipo de mutação e se transformado num mostro peludo”, ela me dizia, em voz baixa, quase segredando. “Uma espécie de Saquatch?”, indaguei, tentando dar alguma credibilidade à fantasiosa teoria de Suely. “Sas o quê?”, ela perguntou. “Sasquatch, o Pé Grande ou, dependendo da região, o Abominável Homem das Neves”, expliquei, e ela “ah, bom! É isso mesmo, tipo o Pé Grande”, disse, agora com a voz um pouco mais alta e um certo desdém na entonação, como quem também, no fundo, não está se levando muito a sério. Depois de um tempo, ela retomou o assunto. “Não sei se esse bicho peludo que as pessoas dizem ver por aí existe, mas, de qualquer forma, o fato de ter havido aqui nessa região o Homem-Rato ajuda a elaborar o enredo dessa história”, ponderou Suely. “Lendas urbanas costumam prescindir de enredos muito elaborados”, deixei escapar, evidenciando que eu não acreditava em nada daquilo. “É verdade”, ela concordou, “mas não deixa de ser interessante imaginar que a história da Loura do Bonfim, por exemplo, começou a circular por aí porque existiu mesmo, sabe-se lá quando, uma loura que morou naquela região do Bonfim e que, por alguma razão, chamava muita atenção, ou pela beleza ou porque tinha um aspecto fantasmagórico ou ainda porque se envolveu em algum crime. Vai saber. A mesma coisa com o Capeta do Vilarinho ou o Velho da Capa Preta do Alto dos Pinheiros ou a Viúva do Madre Gertrudes, que fica entoando rezas nas noites de lua cheia”, enumerava, quando interrompi: “Velho da Capa Preta do Alto dos Pinheiros? Viúva do Madre Gertrudes?”, perguntei, realmente curioso. “Desses dois você não sabe?”, ela indagou, entusiasmada. “Então vou te contar, afinal, ainda falta um tempo para os clientes começarem a chegar”.

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