Por trás da rainha dos disfarces

Julio Maria Jornalista

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

FILIPEARAUJO
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Repórter de música com 20 anos de experiência, Julio Maria destrinchou a biografia de Elis Regina por quatro anos. Na próxima terça, 17, quando a Pimentinha faria 70 anos, ele lança o livro “Nada Será como Antes” (Master Books, 424 págs., R$ 49), e traz à tona depoimentos e documentos inéditos, como o boletim policial de 19 de janeiro de 1982, detalhando a trágica morte de Elis

Como o livro nasceu?

A Master Books (editora) me ligou em 2010 e queria fazer um livro em homenagem a Elis. Nada muito complicado. Historicamente eu teria que ouvir umas pessoas mais próximas a ela, pesquisar uns arquivos de fotos. A ideia era jogar umas frases legais dela (Elis) no livro também. Comecei a fazer, mas quando cheguei na terceira entrevista, comecei a ver que as histórias que me contaram não estavam em lugar nenhum. Li “Furacão Elis” (biografia escrita por Regina Escheverria, lançada originalmente em 1985) e vi que dava para escavar muito mais essa história. Aí eu disse pra editora: “Olha, com o material que estou vendo, acho que tem que fazer uma biografia mesmo”.

O livro é editado pela Master Books, da Eliana Michaelichen, ex-mulher de João Marcelo Bôscoli. Ele e os outros dois filhos de Elis, Pedro Mariano e Maria Rita, deram liberdade total para você?

O João Bôscoli (filho de Elis Regina e curador de sua obra) chegou para mim e disse: ‘Seguinte: tudo o que a gente não quer é uma biografia chapa-branca. Estamos preparados para conhecer a história da Elis’. E isso no sentido pesado da coisa.

Quanto tempo demorou entre as pesquisas e o término do livro?

Foram quatro anos de trabalho de entrevistados, mais de 130 entrevistas para entrar fundo nessa história. Não é fácil de contar: a maior cantora do país, simplesmente.

A sinopse do livro feita pela Master Books menciona “pessoas importantes que até então não haviam se pronunciado, como dezenas de músicos que tocaram com ela”. Pode dar alguns exemplos de quem são essas fontes?

Tem casos curiosos. Por exemplo, o Milton Nascimento ficou sabendo que estava sendo feita a biografia e me ligou: “preciso falar com você, queria que viesse aqui em casa”. Fui na casa dele no Rio, ele ficou contando casos e histórias sobre a Elis durante um dia inteiro. Foi uma surpresa, eu sabia que o Milton teve alguma história com a Elis, mas não sabia que eram tantas, em momentos diferentes da carreira. Foi um personagem que caiu praticamente no meu colo. O Samuel Mac Dowell também. É um cara super recluso, advogado e namorado da Elis na época, que achou ela morta na manhã de 19 de janeiro de 1982. Esse homem falou comigo por três vezes.

E você recuperou o laudo da morte de Elis Regina?

Sim. É um documento inédito ao público. Todos os depoimentos estavam no inquérito que consegui desarquivar do Tribunal de Justiça de São Paulo. Conto todos os relatos: do porteiro ao motorista que levou Elis ao hospital. O pessoal do arquivo da Justiça achava que tinha perdido o documento. Quando peguei, os papéis estavam bem amassados e degradados pelo tempo. E parece que teve um problema de uma enchente no prédio, os papéis foram molhados e dificultaram sua conservação. O próprio Tribunal de Justiça decidiu digitalizar esse material para guardar esse documento tão importante. Eu não reproduzi o documento no livro porque a qualidade é muito ruim. Não copiei os depoimentos também das pessoas envolvidas no dia da morte de Elis. Simplesmente converti tudo o que foi dito pelas fontes na história, trazendo para a narrativa os depoimentos que consegui no Tribunal de Justiça. Li os depoimentos como também entrevistei algumas dessas pessoas que estavam em cena para confirmar as histórias.

Qual importância e peso você deu ao episódio da morte da Elis?

Cara, eu entrei nessa história totalmente desprovido de fanatismo. Quando ela morreu eu tinha 9 anos de idade. O peso que dei para morte da Elis foi o peso que ela teve. O envolvimento da Elis com as drogas acontece nos últimos 10 meses de vida dela – e esse tempo era algo que ninguém havia revelado de forma clara até então. É um envolvimento intenso só com cocaína. Ela começa a usar, e os shows acontecendo em paralelo. É difícil afirmar o motivo, se ela começou por isso, mas ela tinha acabado de se separar do César (Camargo Mariano, segundo marido de Elis e arranjador da cantora) e estreava a turnê “Trem Azul” (em 1981), um show novo. Mas ela está desorientada, ainda que começasse a namorar o Samuel, dava sinais de ainda gostar do César. O peso disso talvez esteja nos dois capítulos finais do livro, ali você começa a perceber que a coisa está ficando feia. O Fernando Faro (produtor musical) costuma dizer que a Elis morreu de ingenuidade. Justamente por não saber usar (cocaína), ela usou de forma errada.

Você disse que não dava para confiar totalmente no que a Elis dizia nas entrevistas. Por quê?

O que eu senti é o seguinte: se a Elis brigasse com você, por mais importante que você fosse, ela não te citaria jamais nas entrevistas. Por exemplo, o primeiro show da Elis no Beco das Garrafas é dirigido por Renato Sérgio e Roberto Jorge, e você nunca ouviu falar deles. Isso porque ela é mandada embora do Bottle’s Bar, uma das boates do Beco. Outro exemplo: o “Falso Brilhante” (show em cartaz entre 1975 e 1977) teve um processo em que Elis sofre com duas pessoas importantes que participaram da criação do espetáculo. Uma delas é Myriam Muniz, a diretora do show. Houve uma divergência séria entre as duas, e esse é outro fato sobre o qual Elis não comenta nas entrevistas. Quando comenta, é muito rapidamente. Nesse sentido era complicado. Não dá para confiar só nas entrevistas da Elis. Tem algumas armadilhas biográficas na história dela. Elis era a rainha do disfarce.

E mesmo assim você conseguiu se livrar das armadilhas?

Acho que com o tempo as pessoas conseguem se abrir mais. Hoje em dia não existe o trauma que ficou na geração da Elis em relação às drogas. O tempo me favoreceu em deixar as pessoas mais à vontade. A própria família, os depoimentos dos filhos são muito importantes. Eu trouxe depoimentos pela primeira vez de pessoas que me receberam muito bem e com muita vontade de falar, mas não tinham sido ouvidas ainda. Os músicos que tocaram com ela, gente importante como o Wilson das Neves, gente que tocou muito tempo com a Elis, como o baterista Nenê, o guitarrista e tecladista Crispim. Adylson Godoy (maestro e pianista), a família Godoy toda me recebeu muito bem também.

Qual era sua relação com a Elis antes do livro e depois? Mudou sua visão acerca da cantora e da pessoa?

Entrei nessa sem ter uma avaliação mais aprofundada da carreira da Elis. Acabei descobrindo o que me parecia um clichê: o rótulo que Elis tem de ser a maior cantora do Brasil tem fundamento não só emocional, mas tecnicamente também: a voz, os artifícios que ela tinha, os coelhos que ela tirava da cartola, cada hora de um jeito. Isso é absolutamente afinação. Você não acha ninguém que teve de gravar duas vezes com a Elis. Nenhum músico em qualquer lugar do mundo. E a forma como ela rompe a interpretação e a vida real. Ela levava a vida para o palco, isso é uma coisa muito séria, chorava numa música e sorria em outras com verdade. As gravações da Elis revelam isso, mostram como ela agia. A noite anterior determinava muito como seria o show de hoje.

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