Ópera de Nádia Figueiredo

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“Uma canção pode mudar um ambiente de ódio e dor. Música é magia, e magia toca a alma.”
Vladimir Fernandes/divulgação
“Uma canção pode mudar um ambiente de ódio e dor. Música é magia, e magia toca a alma.”

Ela tem cara, coração e voz de princesa. Nascida em BH, a cantora e compositora lírica Nádia Figueiredo vive há treze anos no Rio de Janeiro, casada com um carioca. A classificação de seu timbre é soprano dramático-coloratura, tipo raro que ela e seus instrutores demoraram anos para descobrir. Hoje sua voz ecoa pelo mundo, levando mensagens de amor e união.

Nádia, há 15 anos, você começou a trabalhar como modelo no Brasil e no exterior, graduou-se em Publicidade e Propaganda e fez pós em Artes Cênicas. Como e quando a música entrou na sua vida? Teve alguma grande influência?

Meu interesse pela música surgiu ainda criança. Minha avó materna, Maria Zélia, tocava violão e quando eu tinha uns oito, nove anos sempre me deitava perto dela e cantávamos juntas.

No meu aniversário de dez anos pedi um violão de presente para minha madrinha Rosana, que me mimava muito, fazia todas as minhas vontades. Eu toquei três acordes no violão que tinha acabado de ganhar. Para a admiração de todos, os acordes estavam certos para a música que comecei a cantar, “Velho realejo”. Eu nunca havia pegado em um violão antes, foi realmente uma surpresa.

Comecei a fazer aulas de violão e a compor. Eu estudava no Colégio Pio XII, que todo ano promovia o Femp – Festival Escolar de Música e Poesia. Na minha primeira participação, aos 11 anos, ganhei o primeiro lugar cantando e tocando uma música de minha autoria, “SOS para o Brasil”. Participei do festival todos os anos, até me formar. Quase sempre ficava em segundo ou terceiro lugar. Eu realmente amava estar no palco. Minha família e amigos sempre iam me prestigiar, levavam faixas, balões, era uma festa.

Você canta em diversos idiomas, como hebraico, híndi, russo, espanhol, italiano, inglês e até esperanto. Fala alguma dessas línguas?

Tirando o espanhol e o inglês, não falo esses idiomas. Aprendo fazendo aulas para uma determinada canção ou através de gravações de pessoas nativas, como foi o caso do híndi. Eu compus uma música mística em homenagem à Índia, no videoclipe estou vestida com sári e canto quatro frases em híndi. Recebi gravações pelo WhatsApp da Índia, o que foi essencial para a conclusão da música. Com o russo, hebraico e esperanto foi o mesmo. As pessoas me ajudaram com muita boa vontade, estavam sempre corrigindo minha pronúncia. Foram trabalhos de muita concentração e dedicação. Os fonemas mudam bastante de um idioma para outro, às vezes ficava bem cansada e precisava de alguns dias sem escutar pronúncia alguma.

Como repercutiu a gravação de “La Floroj Violaj de la Dezerto”?

Essa música em esperanto é composição minha com Iuri Cunha, produtor musical da Globo. Muitos dizem ser uma língua morta, mas hoje é falada em mais de 28 países e tem 50 mil títulos na literatura. Foi criada há 125 anos por um oftalmologista polonês chamado Dr. Ludwig Zamenhof para romper barreiras de raças e culturas, pois é uma língua neutra. Quando resolvi compor a música, tive que procurar alguém que falasse esperanto. Como é uma língua muito falada pelos espíritas – inclusive há várias obras de Chico Xavier traduzidas para o esperanto – uma associação espírita me passou o contato de um esperantista fluente, o paulistano Adonis Saliba. Eu enviei a letra em português, ele traduziu para o esperanto, fomos gravando, ouvindo, corrigindo. Fiquei uns dois meses trabalhando a música. Depois que a lancei, a Comunidade Internacional de Esperanto se sentiu muito honrada. Abaixo do vídeo no YouTube há comentários do mundo todo nessa língua. A música tocou em uma rádio na Polônia e nos EUA. Muitos esperantistas disseram ser a canção mais bonita que eles escutaram no idioma e de pronúncia perfeita.

Sua “onda musical” é misturar diversas culturas, países, tradições e estilos. Conte um pouco sobre o projeto Opera Lounge Music.

O projeto Opera Lounge Music usa a música para unir povos, culturas, tentando quebrar paradigmas e radicalismos. Porque um judeu ou muçulmano não pode gostar de escutar “Ave Maria”, que é uma música cristã? Porque um católico não pode apreciar uma música espírita, indiana, árabe?

Eu gravei uma música em hebraico, escrita por Rabbi Shalom Shabazi no século XVII, considerado o Shakespeare do Iêmen. O título, “Im Nin'alu”, em português significa “Se as portas dos justos estiverem fechadas para você, as portas do céu sempre estarão abertas”. Essa canção fez muito sucesso na década de 1980, na voz de Ofra Haza, uma cantora israelense. Resolvi introduzir um ritmo flamenco, para homenagear os judeus e o flamenco. Muita gente não sabe, mas os judeus sefarditas, que viveram na Espanha, deram uma grande contribuição ao flamenco e foram expulsos na Inquisição Espanhola em 1492, a grande diáspora. Então, esta conquista não é somente dos ciganos e árabes. Paco de Lucía, um dos maiores guitarristas de todos os tempos, encontrou partituras em uma sinagoga em Toledo, onde ele vivia, e era categórico em afirmar a influência dos judeus sefarditas no flamenco, que se tornou Patrimônio Imaterial da Humanidade em 2010.

Os judeus sempre foram muito perseguidos e a discriminação e o preconceito me incomodam profundamente. Os próprios esperantistas foram perseguidos e exterminados junto aos judeus na Segunda Guerra Mundial. Eu acredito que a música possa unir os povos de vários lugares, de todas as raças, nacionalidades, idades. Uma música pode mudar um ambiente de ódio e dor. Música é magia e magia toca a alma dos homens.

Suas canções tratam da humanidade, das diferenças culturais e você ajuda instituições. Fale sobre esse lado social.

Desde o início do projeto, existia o lado social, pois ele visa a não discriminação através da música. Eu sou devota de Nossa Senhora e gravar o videoclipe “Ave Maria” me comoveu muito. Em uma cena, jurava que podia ouvi-la conversando comigo. Chorei nessa hora. A Virgem tocou meu coração de uma forma única, um presente de Deus. Fiz a promessa de nunca receber dinheiro algum com essa música ou o vídeo. Então, resolvi fazer vários DVDs e vender para ajudar instituições de câncer, asilos, creches, o que preenche meu coração. Maria quis me mostrar o quanto o mundo precisa de ajuda, de união. Quando nos deparamos com pessoas necessitadas e muitas vezes tão pobres, reconhecemos o quanto somos egoístas. Outras canções minhas também podem ser compradas no iTunes.

Entre as trilhas que gravou para novelas e filmes, qual sua preferida?

Gravei algumas trilhas incidentais para a novela “Amor à vida”. Quem assistiu deve se lembrar da personagem autista (Linda, interpretada por Bruna Linzmeyer). Sempre que ela aparecia, tocava a trilha “Missing you forever”, composta pelo Iuri Cunha, com a minha voz. Foi legal me escutar durante os oito meses da trama.

Como foi o convite para “Lacrime d’inchiostro”, canção pop com vozes líricas, em dueto com Plácido Domingo Jr. (filho do consagrado tenor), gravada no final do ano passado?

Nas redes sociais tenho contato com pessoas do mundo todo, na maioria músicos. Faz parte do meu trabalho ler e estudar diferentes culturas e tradições de variados povos. Ano passado, conheci o Plácido Domingo Jr., que se encantou com o meu projeto. Tomei a iniciativa de convidá-lo para cantar comigo, uma canção em italiano que já estava pronta (“Lágrimas de tinta”, em português), dos compositores Rafael Langoni Smith e Paul McGrath. Tudo aconteceu muito rápido, eu o convidei e em poucos dias ele já tinha gravado. Não imaginávamos que poderia dar tão certo a união de nossas vozes e o arranjo em si, feito pelo produtor Ricardo Leão.

No momento, algum projeto especial?

Estou trabalhando algumas canções, todas para o exterior; uma delas muito diferente e especial. Tenho estudado o dialeto da Groenlândia para cantar com uma criança esquimó. Vou gravar no dialeto deles e em português, e ficaremos com a melhor sonoridade. Para mim está sendo mágico poder conhecer pessoas do Polo Norte, já fiz alguns amigos online e venho lendo e estudando há dois anos sobre aquela região. O desgelo das calotas polares está muito rápido, algo assustador. Espero um dia poder cantar lá.

Uma de minhas composições foi destaque de uma exposição sobre o Ártico no museu Orient, em Moscou (Rússia). A música chamada “Avannaa” tocou durante toda a mostra.

Fugindo um pouco da música, do que mais sente saudades de Minas?

Dos meus parentes e dos mineiros, claro.  Não posso deixar de citar a alegria e a simpatia, a comida e a cerveja gelada, com a mesa cheia de mulheres... Hahahaha. Só em BH para ter tanta amiga linda e simpática. Saudades.

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