Nos trilhos da venezuelização

iG Minas Gerais |

Na Venezuela, Nicolás Maduro aprova amanhã, com ajuda de seus pares, a chamada Lei Habitante, o que lhe possibilita governar por decretos, contra o que chama de “oposição golpista” e “ameaça imperialista”. Por seis meses, provavelmente prorrogáveis por um tempo indeterminado, o presidente, que recebe mensagem de Hugo Chávez de um passarinho, poderá tomar todo tipo de decisão de acordo com seus humores e devaneios, sem se preocupar em aprovar nada no Congresso. É a democracia a serviço de uma nítida contrademocracia. Um comportamento típico de uma espécie de “déspota esclarecido” dos tempos de hoje que, ao mesmo tempo em que preocupa, pela sua beligerância, serve de chacota por atos cada vez mais irracionais e caricatos. O cômico transformado em trágico. No mesmo dia, em diversas capitais do Brasil, aguarda-se uma grande concentração de manifestantes contrários ao governo do PT e de Dilma Rousseff. Será, como muitos estão prometendo, o primeiro ato de uma série que pedirá o impeachment ou, na impossibilidade legal desse anseio de parte da sociedade, a renúncia da presidente. Com a metade do país pintada de vermelho e a outra de azul, a resposta à convocação para o dia 15 de março não tardou. Aliados de Dilma, aproveitando o simbolismo do dia 13, foram para as ruas em atos organizados por centrais sindicais, movimentos sociais de esquerda e prefeituras do PT e do PCdoB. A defesa de uma Petrobras atacada pelo “antinacionalismo” foi, na verdade, o pano de fundo de um teste para o governo saber se pode ou não entrar de cabeça na estratégia de ocupação popular, revidando manifestações em contrário com seus militantes nas ruas. Uma preparação para o “exército de Stédile” entrar em campo. Literalmente. Na Venezuela, começou da mesma maneira. Com altos índices de violência, instabilidade econômica, caos social e polarização na política, venezuelanos contrários aos rumos impostos ao país pelo chavismo partiram para os protestos. A ação gerou a reação chavista. Após se livrar de um golpe pela extrema direita e de se fortalecer por meio das benesses sociais para a população mais carente, graças aos fartos petrodólares e ao comprometimento da saúde econômica de seu país, Hugo Chávez aumentou sua popularidade e, com isso, sentiu-se forte o bastante para criar a República Bolivariana, que, mais tarde, prenderia opositores, fecharia redes de televisão e restringiria a liberdade de cidadãos para, agora, estrear, sem retaliação objetiva por parte de nações democráticas, uma nova ditadura na América Latina. Por isso, toda atenção é pouca. A radicalização dos protestos e os discursos difusos de ambos os lados, cujos interesses mais flagrantes são apenas a manutenção do poder ou a substituição de um grupo por outro, sem que a grande massa tenha a exata consciência da necessidade de uma nova ordem social, política, jurídica e ética no país, inspira cuidados. É difícil imaginar que surja no Brasil um governante capaz de repetir por aqui as sandices de Maduro, mas é inegável que o caótico processo de venezuelização já começou.

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