Cicloativismo nas redes sociais

Ciclistas usam meio digital para discussões em torno da ocupação dos espaços em Belo Horizonte

iG Minas Gerais | João Paulo Costa |

Além das ruas. Grupos de ciclistas ganham força a partir do momento em que vão para a internet
Arquivo pessoal
Além das ruas. Grupos de ciclistas ganham força a partir do momento em que vão para a internet

Eles acreditam que a bicicleta pode ser os óculos para enxergar a cidade de uma forma diferente, e que pode virar um símbolo de que as ruas são das pessoas. Mas, para isso, é preciso ter estratégias. Para além da discussão da mobilidade urbana, que ganha as ruas, ciclistas belo-horizontinos vêm ocupando estrategicamente um outro espaço: as redes sociais. Por meio de comunidades, páginas e grupos, eles têm feito das plataformas eletrônicas um ambiente horizontal para a tomada de decisões e, sobretudo, para futuras ações daqueles que pedalam pelas vias da capital mineira.

Nos espaços digitais, eles se municiam de argumentos em favor do uso da bicicleta como meio de transporte, questionam ações do poder público, discutem questões sexistas e de gênero, e trocam experiências sobre as realidades distintas de ciclistas no Brasil e no mundo.

O dentista Carlos Edward Campos, 49, é membro do grupo Bike Anjo BH e associado da BH em Ciclo – Associação dos Ciclistas Urbanos de Belo Horizonte. Ele diz que as redes sociais são, hoje, uma ferramenta para os movimentos relacionados à mobilidade urbana conversarem. “Em uma cidade que tem 80% das vias ocupadas por automóveis é mais uma estratégia para os ciclistas locais discutirem seu real espaço”, conta.

Na mesma linha, o servidor público Vinicius Zucheratto, 32, diz que o diálogo na internet pode ser um aliado no estreitamento do hiato entre a intenção, o discurso e a ação. “Pelas redes sociais são apresentadas propostas, e ideias são debatidas democraticamente”, diz.

Mas a pesquisadora em comunicação digital Joana Ziller, que é professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), chama a atenção para o esvaziamento dos discursos. “As discussões de ciclomobilidade na rede são ferramentas potentes de articulação. Por outro lado, é importante pensar que o ativismo de sofá tem suas limitações. Uma coisa é o discurso na rede, outra é a ação efetiva e organizada nas ruas”, avalia.

Outras Ações. De acordo com a professora da Escola de Arquitetura da UFMG Natacha Rena, a capital tem cerca de 20 grupos de adeptos da bicicleta que agem de forma mais incisiva na conquista do espaço urbano. Ela e seus alunos desenvolveram um estudo, recentemente, que mostrou como a mobilidade urbana influencia no deslocamento das pessoas.

O resultado, segundo ela, foi um mapeamento que envolveu desde oficinas e lojas de venda de bicicletas até um georreferenciamento do cicloativismo. “A maioria dos grupos circula na região da avenida do Contorno. E, sem dúvida, o Massa Crítica é o mais importante, do ponto de vista político. Mas vemos uma proliferação de ciclistas que evidenciam também problemas sociais da cidade e cobram do poder público atitudes concretas”, destaca Natacha.

Articulação

Interação. Segundo a professora Natacha Rena, movimentos híbridos, como o Massa Crítica, estreitam laços com outros movimentos, como o Tarifa Zero e o Carnaval Insurgente de Luta pela Cidade.

‘Bike é Legal’ Renata Falzoni, 61, jornalista e idealizadora do site Bike é Legal – canal eletrônico que discute o uso da bicicleta –, utiliza a magrela como meio de transporte desde 1975. Segundo ela, a internet foi um divisor de águas para o movimento no país. “Antes, os ciclistas conviviam em pequenos nichos e não se articulavam. Agora, as redes sociais, sites e blogs são determinantes para a continuidade das ações de ocupação dos espaços urbanos pelos ciclistas, e tornou-se algo estratégico nas discussões dos temas relacionados à mobilidade urbana”, avalia a cicloativista paulista.

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