Tráfico limita acesso de jovens a programas sociais em Betim

Restrição acontece não só em toques de recolher, mas em atividades simples, do dia a dia

iG Minas Gerais | Luciene Câmara |

Programas sociais. 
Até mesmo oficinas e aulas são prejudicadas
FOTO: JOAO LEUS / OTEMPO
Programas sociais. Até mesmo oficinas e aulas são prejudicadas

A briga entre chefes do tráfico de drogas, que deixou um jovem morto e quatro feridos em uma escola do Jardim Teresópolis, em Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, divide o território no bairro. Quem dita as regras por lá são gangues já conhecidas, que delimitam áreas onde não só os rivais são proibidos de circular, como moradores que não têm envolvimento com o crime. O domínio de poder e espaço é tamanho que a vida na comunidade é conduzida no ritmo dos acontecimentos. Quando há morte na madrugada, jovens não comparecem a atividades culturais e esportivas, e há casos de cancelamentos de reuniões e oficinas. A situação teria piorado nos últimos quatro meses, após a prisão de líderes de gangues e a consequente disputa pela sucessão.

“Há uma disputa territorial no Teresópolis. A turma do Recreio não pode frequentar escola ou festa na região do Gás. E não é só traficante que não pode se movimentar, morador comum e jovens sem envolvimento com gangues também”, disse o secretário municipal de Segurança Pública, Luis Flávio Sapori.

O cerceamento no bairro é antigo. Um morador disse que as regras existem desde 2003. “Tem menino de 16 e 17 anos que não conhece a vila Recreio, só por foto. Os meninos daqui também não circulam na Duque de Caxias”, afirmou.

O aumento na tensão começou com a prisão de dois líderes do tráfico, o Rodriguinho (da gangue do Gás) e o Gleissinho (dagangue do Campo). Em janeiro e fevereiro, 58 mortes foram registradas na cidade, e a taxa de homicídios chegou a 50 por 100 mil habitantes – cinco vezes mais que o limite imposto pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Risco. Além das restrições do dia a dia, sem mais repercussões, a disputa provocou um toque de recolher em fevereiro, após a morte do sobrinho de Rodriguinho. O comércio fechou, aulas, reuniões e oficinas foram canceladas, e as principais ruas ficaram vazias. O Centro de Prevenção à Criminalidade (CPC), onde funciona o Fica Vivo! (programa do governo estadual que oferece oficinas culturais e esportivas a jovens), chegou a fechar as portas.

Gestora do CPC, Camila Campos salienta que a restrição não foi só naquele dia, mas é presente no cotidiano. “Quando o território está mais aquecido, jovens que não têm envolvimento com drogas ficam com medo de circular. Por isso as oficinas são realizadas em pontos diferentes do bairro para atender um público maior”.

Mudança. O tiroteio na Escola Teotônio Vilela aconteceu na quinta-feira, em plena luz do dia, assustando os moradores. Mas o medo não é à toa. Eles dizem que é fácil encontrar no bairro famílias com jovens assassinados. Uma dona de casa de 34 anos perdeu o filho, de 16, há um ano. Ele havia se mudado, mas voltou à cidade para fazer um tratamento médico e acabou morto.

“Ele era um menino bom, mas o problema são as gangues, que dominam os jovens e tiram a vida das pessoas por qualquer motivo”, disse a mulher.

Pacto de união entre gangues Na segunda-feira, antes do tiroteio na escola Teotônio Vilela, um pacto teria sido firmado entre os chefes do tráfico para uma trégua como forma de tirar o foco do bairro e afastar o policiamento, que estaria se intensificando. Ao menos seis grupos inimigos teriam feito o acordo, exceto o traficante conhecido como Naná, que era da gangue do Campo e foi para o bairro vizinho, o Perla. O tiroteio de quinta-feira colocou em xeque o acordo e aumentou o medo dos moradores.

Efetivo de Minas O chefe da imprensa da Polícia Militar, major Gilmar Luciano, disse que para confirmar a fala desta quarta de Luis Flávio Sapori, de que Betim é a cidade com mais de 200 mil habitantes em Minas com o menor efetivo policial, teria que ser feito um levantamento. Ele explicou, porém, que a distribuição do efetivo na região metropolitana e no interior é diferenciada porque os locais mais próximos podem contar com reforço de batalhões da capital, como no dia do tiroteio.

Oficinas são alternativa ao crime Além das barreiras geográficas, os jovens do Jardim Teresópolis, em Betim, precisam vencer o desafio de quebrar laços de amizade se quiserem fugir do tráfico de drogas. O bairro conta com projetos de qualificação, como o Fica Vivo! (do governo do Estado) e o Árvore da Vida (da Fiat), mas chegar até as oficinas nem sempre é tarefa fácil. “Vejo violência demais. Sou criticado por fazer parte do Árvore. Os meninos ficam me colocando apelido por eu vir para a oficina e não ficar lá com eles, no tráfico. Mas não me envolvo com isso porque não quero dar desgosto para minha mãe”, disse um jovem de 15 anos. Na próxima quarta-feira, lideranças comunitárias farão uma reunião para discutir melhorias para bairro a serem levadas ao poder público.

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