Julianne Moore: Sem medo da verdade

Em cartaz em três filmes na capital, estrela anglo-americana se consagra como uma das atrizes mais premiadas do cinema

iG Minas Gerais | Daniel oliveira |

Vilã. Em “O Sétimo Filho”, Julianne Moore vive a feiticeira má Mãe Malkin
Divulgação
Vilã. Em “O Sétimo Filho”, Julianne Moore vive a feiticeira má Mãe Malkin

Em cartaz atualmente em “Para Sempre Alice” e “O Sétimo Filho”, Julianne Moore completa sua invasão tríplice dos cinemas da capital com a pré-estreia de “Mapas para as Estrelas”, de David Cronenberg, neste sábado (14), às 20h, no Belas Artes. Mais do que a simples versatilidade, o que a justaposição desses trabalhos permite perceber é o motivo pelo qual a presença da atriz é tão marcante em todos os seus filmes: a compreensão clínica que ela tem de cada história que está contando e da função de seu personagem nela.

Em “O Sétimo Filho”, Moore vive a “bruxa má”, conferindo um pedigree teatral ao material infantojuvenil de origem – similar ao que ela fez no ano passado em “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte I”. Mas são os outros dois que servem como aulas de atuação. “Alice” é uma performance impressionista: uma mulher fazendo de tudo para mascarar e lutar contra a deterioração acontecendo dentro dela. E a Havana Segrand de “Estrelas” é o extremo oposto: um show expressionista de uma atriz hollywoodiana que, em suas roupas transparentes e sua extravagância afetada, pede para ser vista o tempo todo, quando não há nada ali para ser visto.

São dois trabalhos tão distintos que é quase impossível acreditar que são vividos pela mesma pessoa. E é esse desafio da credulidade que vem movendo Moore de uma atriz pornô com coração de ouro em “Boogie Nights” para uma dona de casa deprimida dos anos 1950 em “As Horas”, a uma artista erótica feminista em “O Grande Lebowski” para Sarah Palin em “Virada no Jogo” – sem que se duvide dela em nenhum deles. “Eu estou procurando pela verdade. O público não vem ver você, ele vem ver ele mesmo”, Moore afirmou em uma entrevista.

Filha de uma psicóloga e um advogado militar, a atriz vem baseando seu trabalho nessa busca desde o início da carreira, em novelas norte-americanas nos anos 80. Graduada em artes cênicas pela Universidade de Boston, ela contaria anos mais tarde que, mesmo quando recebia os piores diálogos, enfatizava na cena as palavras que considerava emocionalmente verdadeiras ali. A experiência veio a calhar em um papel essencialmente novelesco – uma mulher adúltera – que lhe renderia sua primeira indicação ao Oscar de melhor atriz em 2000, pelo excelente “Fim de Caso”.

Dois anos antes, ela já havia sido indicada como coadjuvante por “Boogie Nights”. O papel de Amber Waves, uma releitura do clichê da “prostituta com coração de ouro” como uma atriz pornô, não conquistou Moore logo de cara, mas ela foi convencida pelo diretor Paul Thomas Anderson e pela qualidade do roteiro. “Eu gosto de história, é o que me atrai mais do que o personagem. Não tem graça se é um bom protagonista, mas a história é ruim”, explicou em uma entrevista ao “The Hollywood Reporter”.

Após performances elogiadas em “Short Cuts – Cenas da Vida” e “Mal do Século”, “Boogie Nights” confirmou Moore como uma das maiores revelações do cinema norte-americano nos anos 90. Mas a explosão veio no início dos anos 2000 – especialmente em 2003, quando ela foi indicada ao Oscar de atriz e atriz coadjuvante no mesmo ano, respectivamente por “Longe do Paraíso” e “As Horas”. A derrota neste , em que Moore fez a melhor tradução cinematográfica da depressão como uma dona de casa se dando conta de seu desespero emocional ao ler “Mrs. Dalloway”, é uma das grandes vergonhas da Academia – alguém ainda se lembra de uma cena de Catherine Zeta-Jones em “Chicago”?

Sem abaixar a cabeça, porém, a atriz continuou sua busca pela verdade e por boas histórias, em papéis pequenos como em “Filhos da Esperança”, ou grandes como “Ensaio sobre a Cegueira”, até o reconhecimento chegar. E ele chegou com tudo em “Virada no Jogo”, em que Sarah Palin foi de piada midiática a um ser humano falho pelas mãos de Moore, sem necessariamente defender a ignorância política da candidata norte-americana.

A atriz ganhou todos os prêmios possíveis pela performance, abrindo as portas para propostas como “Para Sempre Alice” e “Mapas para as Estrelas”. Dois trabalhos que representam realmente uma coroação de seu talento: com o Oscar pelo primeiro e a Palma de melhor atriz em Cannes pelo segundo, Julianne Moore se tornou a quarta pessoa a vencer o Oscar e prêmios de atuação nos três principais festivais de cinema do mundo (ela já havia ganhado a Copa Volpi em Veneza por “Longe do Paraíso” e o Urso de Prata em Berlim por “As Horas”). Os únicos três outros nomes que realizaram o feito foram ninguém menos que Jack Lemmon, Sean Penn e Juliette Binoche.

O segredo do sucesso está em uma resposta dada por Moore em uma mesa-redonda promovida pelo “The Hollywood Reporter” no ano passado. Questionada por Reese Witherspoon se ela não sente medo de aceitar papéis tão diferentes e emocionalmente desafiadores, a atriz foi categórica. “Uma terapeuta minha me disse uma vez que um sentimento não pode te matar. E não pode mesmo. É só uma emoção, nós estamos fingindo, e eu realmente gosto disso”, explicou.

 

 

Top 10 Julianne Moore
  • “Minhas Mães e Meu Pai”
  • “Ensaio Sobre a Cegueira”
  • “As Horas”
  • “Longe do Paraíso” 
  • “Magnólia” 
  • “Fim de Caso”
  • “O Grande Lebowski”
  • “Boogie Nights”
  • “Mal do Século”
  • “Short Cuts”
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