Encontro de titãs

Veteranas - Nívea Maria e Laura Cardoso estão em “A Última Sessão”, que chega a BH

iG Minas Gerais | Bárbara França |

A velha guarda do teatro e da TV brinda à reunião no palco
João Caldas/Divulgação
A velha guarda do teatro e da TV brinda à reunião no palco

Para o Manual Brasileiro de Sinalização de Trânsito, o idoso é um bonequinho meio corcunda segurando uma bengala. Próximo a algum cruzamento perigoso, às vezes ele também aparece acompanhado de outro bonequinho igualmente encurvado, vestindo saia e apoiado pelo braço. “Que velhice é essa?! Meu pai dirigiu até os 80 anos e continuava trabalhando”, estranha o ator e diretor Odilon Wagner. Sentindo-se bem enxuto aos 60 anos, ele acredita que as representações da velhice estão defasadas e que já passou da hora de a sociedade entender que as pessoas mais velhas são super ativas, se divertem, se relacionam e têm muita história para contar. 

Pensando nisso é que ele deu vida ao espetáculo “A Última Sessão”, que estreia em Belo Horizonte na próxima semana. “Temos que mudar nossa cabeça sobre o que é envelhecer. Eu tenho 60 anos e nem penso em parar. Estou fazendo novela, teatro, escrevendo peça. Quanto mais você vive, mais você tem energia pra vida. Assim são as pessoas maduras, assim que temos estimulá-las”, comenta Odilon, que escreveu o texto e dirige a peça.   E que estímulo é ver em cena atores e atrizes experientes como Laura Cardoso, Nívea Maria, Etty Fraser, Sonia Guedes, Sylvio Zilber, Miriam Mehler, Gésio Amadeu, Gabriela Rabelo, Yunes Chami e Marlene Collé. Somando quase 570 anos de carreira, como gosta de brincar Odilon, o elenco prova que idade não é motivo para entregar os pontos.   A ideia de reunir os veteranos era um sonho antigo do diretor. Acostumado desde criança a ver no palco seus ídolos favoritos, ele queria resgatar esse momento do teatro em que as montagens contavam com vários atores, as temporadas duravam meses e os mais velhos tinham vez. “Hoje as produções para TV e teatro são feitas para os jovens. Os papéis mais importantes e de protagonismo não são destinados aos atores veteranos. Então, além da vontade de reunir esse elenco de peso, queria também discutir a questão da maturidade”.   Durante a comédia, são projetadas referências aos principais papéis de cada um dos atores, refrescando a memória dos espectadores sobre os rostos que eles estão acostumados a ver na telinha e criando uma relação ainda mais familiar com seus “velhos conhecidos”.    Roupa suja A história se passa em um restaurante onde um grupo de amigos de longa data está reunido para comemorar o aniversário de Elvira, personagem de Laura Cardoso, que já chega justificando o atraso porque estava “nos braços do seu gato”. Sim, eles falam sobre sexo na “terceira idade” e sobre vários outros assuntos que são considerados tabus nessa época da vida.    “No bate-papo, os amigos começam a se manifestar, dão sua opinião sobre vários assuntos, raça, sexualidade, família, amores antigos, tudo isso com muito humor, com muita energia, mostrando que a pessoa de mais idade está muito antenada, está por dentro de tudo isso que acontece”, comenta a atriz Nívea Maria. Ela vive Amanda, uma mulher traída por sua melhor amiga e cujo imbróglio faz parte de um dos motes centrais da peça.   Inspirado pela obra “A Tempestade”, de William Shakespeare, “A Última Sessão” cria uma espécie de acerto de contas entre os amigos que, em meio às conversas banais, resgatam questões e pendências de um passado mal resolvido e recalcado que seria um prato cheio para Freud. Aliás, o título do espetáculo faz referência a uma sessão de terapia e não à última apresentação daqueles atores. Muito pelo contrário, afinal, eles nem pensam em parar.   Na atividade “Quando me descobri no teatro, sempre acreditei que eu tinha vocação. Não é só questão de talento, é uma vocação para essa profissão. Sempre acreditei que seria longeva. Minha carreira, de sucessos ou fracassos, acredito que vou continuar pra sempre”, reflete Nívea, que volta para as telinhas na próxima novela das seis da Rede Globo, “Encontro Marcado”. Na primeira parte da trama, de viés espiritualista, ela viverá Gilda, uma governanta que não se dá muito bem com a patroa, interpretada por Irene Ravache.    No universo jovem de “Malhação” como o advogado Heideguer, Odilon também sente certa ojeriza ao ouvir a palavra “aposentadoria” e tem na sua peça a inspiração necessária pra continuar em atividade. “Queria ser que nem a Laura Cardoso, chegar aos 87 em cima do palco. Assim que me imagino, me vejo. Nunca consegui me imaginar como um velhinho que aposenta e vai para o sítio. Até respeito quem tem esse desejo, mas não é pra mim”.   A Última Sessão Sesc Palladium (r. Rio de Janeiro, 1.046, centro, 3270- 8100). Dias 19 (quinta) e 20 (sexta), às 20h30. Ingressos a partir de R$ 50 (plateia 3, inteira)

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