Efêmero parecer

iG Minas Gerais |

Tudo parece escuro, de repente. Você se sente só. Os pensamentos se emendam, um no outro, o outro num, formando um inevitável emaranhado de nós. E, ao tentar desfazer o menor, surge um segundo, bem grande, e um terceiro ainda maior. Logo, eles são muitos. Estão em um ciclo aparentemente sem fim, perdido na essência do ser. Quando se está preso dentro de si mesmo, o bem, às vezes, perde o sentido, as cores ficam opacas. Os lugares aparentam estar mais frios, e os rostos parecem ainda mais tristes. É como se todos os dias estivessem nublados, mesmo que o sol brilhe intensamente do lado de fora. Tudo parece duvidoso, de repente. Você se sente angustiado. As pessoas não são exatamente o que desejam ser. Ou são aquilo mesmo e, no fundo, nunca se revelaram. Pela calçada, se esbarram. Não se olham. Seguem seus caminhos. Têm pressa. Muita pressa de chegar a lugar nenhum. Carregam ganância. Elevam aparência. Disseminam a discórdia. Propagam a inveja. Corrompem-se pelo dinheiro ou pelo poder, de preferência que eles andem juntos. Isso, nas raras vezes em que param. Normalmente, evitam parar. Não querem perder tempo. As pessoas estão ávidas por algo, embora não definam exatamente o que é. Seguem numa procura compulsiva. Tudo parece efêmero, de repente. Você se sente ansioso. Aflito pelo que ainda não viveu, mas que, certamente, irá chegar. Porém, vai acabar dia desses, porque tudo passa. Simples, exato, lógico. Em algum momento, algo será interrompido. O fim foi improvisado no provisório do começo. Dá passagem para o que virá. Deixa saudade, gostos, cheiros, sabores, suspiros. O tempo leva o ódio, a melancolia, o querer. Depois? Arruma um jeito de trazer de volta, no mágico ir e vir da vida. Tudo parece agitado, de repente. Você se sente inquieto. É como se o silêncio ganhasse voz. E, como se, mesmo calado, até o coração pudesse falar. Ele diz que está em festa. Pulsa. Mas o barulho não ecoa. Ninguém ouve, está apenas dentro de você. Alto, bem alto. Grita como se o mundo pudesse acabar naquele segundo numa explosão insana. Apenas para acalmar o que sacode a sua alma. Tudo parece doloroso, de repente. A dor da mente se espalha pelo corpo. Pinica, coça, incomoda, machuca, consterna, contunde. Esparrama-se, impiedosa, sustentando status de vilã. Faz chorar. Faz sofrer. E, se alimentada, da fadiga do outro. Dor da alma entristece, consterna. Parece poderosa, mas em algum momento se esvai. Para voltar logo ou nunca mais. Tudo parece clarear. De repente. Uma luz intensa aponta caminhos. E mesmo que não saiba aonde vão chegar, algo novo se propõe. Foi acesa pela voz doce de um amigo querido, por um abraço ou por um beijo apaixonado. O clarão pode surgir num sopro de vida, de um espaço escondido entre os pensamentos. Ele chega. Ilumina. Conforta. Abraça. Acalenta. Faz seguir. Tudo parece possível, de repente. Como uma brisa leve que toca o rosto e alivia o calor, tudo parece fácil. Apenas para mostrar que nem tudo é o que parece. Simplesmente. E nem todos os porquês têm respostas, nem todo sonho é pra sonhar pelo outro, nem toda meta será cumprida, nem todo herói tem coragem, nem todo medo é real, nem toda luta é em vão. Abre e fecha a porta. Depois, torna a abrir. Vai e volta. Depois, torna a partir. Seja humano e insano. Depois, respire e viva. De repente, viva só intensamente. 

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