O cotidiano sob uma lupa

Antonio Prata comenta sobre sua trajetória na literatura e estreia como novo colunista do Magazine neste domingo

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Autor. Antonio Prata já publicou dez livros, sendo o mais recente o título “Nu, de Botas”
RENATO PARADA/Divulgação
Autor. Antonio Prata já publicou dez livros, sendo o mais recente o título “Nu, de Botas”

Quem já leu algum dos textos de Antonio Prata talvez pouco tenha questionado se o que ele apresenta como crônica não seria, na verdade, um conto. O autor mesmo não separa aquela do universo da ficção e, por isso, sua literatura parece enlaçar leitores dos mais variados gostos.

Dono de uma prosa direta e que busca cativar o leitor, Prata desde a adolescência queria ser escritor e, agora, aos 37, é visto como um dos principais cronistas brasileiros de sua geração. Sem se apegar apenas a essa vertente, ele também atua como roteirista e atualmente está trabalhando no seu primeiro romance. Com um olhar afiado e ao mesmo tempo sutil para o cotidiano, ele publica, semanalmente, uma coluna na “Folha de S.Paulo”, que, a partir deste domingo, será replicada neste Magazine.

Ao refletir sobre o ofício que o tornou mais conhecido, ele compara a crônica a uma maneira ampliada de perceber um pequeno fato recortado da vida. “Eu a vejo como uma espécie de lupa que colocamos sobre um grãozinho de arroz da realidade. Esse grãozinho pode ser tudo, uma memória, um acontecimento recente ou uma ideia que serve para se jogar luz sobre certos aspectos do mundo”, afirma Antonio Prata.

Some-se a isso, de acordo com ele, uma boa dose de entretenimento, e o resultado é o seu texto ideal.

“Eu acho que a crônica precisa entreter. O termo entretenimento, para alguns, pode soar como um palavrão, mas para muitos escritores e artistas como eu, o entretenimento é uma coisa muito positiva. Veja, a crônica está no jornal justamente para permitir à pessoa o contato com outras coisas além dos assuntos chamados sérios. Ela pode dar um pouco de alegria ou um pouco de melancolia, mostrando, por exemplo, o que há além de Dilma e Aécio”, ri o autor.

Na sua tarefa de conduzir o leitor por meio de uma perspectiva permeada pelas mais diversas experiências, Prata ressalta como com frequência ele se coloca nas situações narradas e não apenas comenta o que testemunha. Ali ele tira sarro de suas próprias derrapadas, expressando como o humor pode tornar mais amena a própria sobrevivência.

“Acho que um texto bem humorado simplifica uma certa aceitação e serve como uma maneira de lidar com as intempéries. Eu tento me colocar na piada, e acho que isso aproxima as pessoas. De repente, se eu piso na casca de banana e caio de bunda na história, os leitores também podem perceber o momento que eles também pisam na casaca de banana e caem de bunda. O humor, nesse sentido, traz um alívio cômico. No meu caso, ele aparece nos textos como o reflexo de uma consciência para as nossas fraquezas e para as nossas dificuldades, transformando isso em algo mais palatável”, reflete ele.

Esses ingredientes que se encontram nas suas criações publicadas semanalmente são a marca de sua obra, a exemplo de “Nu, de Botas”, publicado em 2013. Embora ali sejam reunidas histórias de um mesmo personagem que vive a infância, ele não o considera um romance, e sim um apanhado de escritos que transitam entre a crônica e o conto.

‘Em ‘Nu, de Botas’, há diferentes histórias que apresentam diferentes aspectos de um só personagem. Nelas eu percebo a presença desses dois gêneros. Alguns textos eu vejo como crônica, outros como conto e, às vezes, em alguns casos, acontece um hibridismo entre esses dois campos”, diz Prata.

Anterior a esse, a coletânea “Meio Intelectual, Meio de Esquerda” (2010) é outro título que, se não teve o mesmo alcance de “Nu, de Botas”, sem dúvida, trouxe mais repercussão à crônica “Bar Ruim É Lindo, Bicho!” – certamente uma das mais comentadas do autor. De acordo com Prata, se tivesse que produzi-la hoje, ele a faria do mesmo jeito.

“Mais ainda do que naquela época, há uma necessidade de você saber qual posição você ocupa, as razões para que essa posição exista e os motivos de se lutar para mantê-la. Por isso eu escreveria esse texto exatamente igual”, afirma.

“Acho que é importante se saber que alguém pensa de determinado jeito, que nasceu num certo extrato social, cultural e econômico, que tem determinada idade, se é homem, mulher, hetero, gay, branco ou preto. É legal se conhecer os limites do seu cercadinho, especialmente para não cairmos no totalitarismo chinfrim que aparece hoje”, acrescenta Prata.

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