Uma rede de recordações

Cia de Intérpretes Independentes compartilha técnica e pesquisa de linguagem na Escola de Belas Artes da UFMG

iG Minas Gerais | Joyce Athiê |

“A Vida Começa pela Memória” faz uso de relatos verídicos para falar de memórias pessoais e coletivas de forma abstrata e poética
_SuaneMelo_
“A Vida Começa pela Memória” faz uso de relatos verídicos para falar de memórias pessoais e coletivas de forma abstrata e poética

Apesar do encurtamento das distâncias, o Norte do país continua longe de nós, no Sudeste, principalmente quando o assunto é produção artística cênica, que não alcançou lugar que a música, por exemplo, já ocupou. Uma oportunidade para diminuir as distâncias está no trabalho de dois paraenses bailarinos – atualmente residentes em Manaus – que percorrem cidades brasileiras levando a pesquisa da Companhia de Intérpretes Independentes e apresentam o espetáculo “A Vida Começa pela Memória”, que pode ser visto em Belo Horizonte nesta quinta e sexta, na Escola de Belas Artes da UFMG.

À primeira vista, imagina-se a presença de referências sobre o Norte do país no espetáculo, vindo de uma companhia que tem seu trabalho centrado em divulgar a cultura regional. E, de fato, lá estão as referências, mas de forma indireta, retratadas sob a linha contemporânea na concepção cênica, reforçando que a criação não está presa “nem a um tempo e nem a um espaço”, como comenta o encenador coreográfico e bailarino Ricardo Risuenho.

Para o trabalho, os artistas fizeram uso do Facebook em uma página fechada para um grupo formado por pessoas do Pará que foram convidadas a falar de suas memórias. “O Pará está impregnado no espetáculo. A gente não identifica ou especifica, mas, quem é de lá percebe. Um exemplo é a chuva. As pessoas falavam muito da chuva, elemento forte na vida delas que mostra o quanto ela determina uma rotina”, diz a bailarina Anna Raphaella Costa.

Ricardo completa que todo o material coletado passou por um processo de abstração. A busca de memórias vem da valorização das trajetórias de vida, de um percurso permeado por histórias e recordações. “Somos artistas com 30 anos de carreira e, quando a gente chega nessa fase, a gente começa a olhar para trás e percebe que sua vida se inicia agora, quando você começa a ter maturidade e a resgatar o que viveu, como uma teia”, reflete Ricardo.

A ideia da teia está representada no palco por uma grande rede de pesca que cerca toda a área cênica. “São essas gamas de experiências que te tornam o que você é e transformam a vida mais plena. As personagens deslumbram o passado, preveem o futuro e vivenciam o presente. É o que a gente faz o tempo todo nas nossas vidas”, diz Ricardo.

Anna explica que a memória não está retratada pelas histórias, mas pelos estados que elas representam. “São depoimentos particulares e individuais, mas, estudando as memórias, percebemos que elas são estados compartilhados, por isso as pessoas conseguem se identificar. É aquilo que você tem, carrega e que pode ser do outro, de uma maneira diferente”.

Para a estética, Ricardo buscou no fotógrafo tcheco Jan Saudek a inspiração que desejava para representar estados por meio de um olhar fantástico. “Ele trabalha com memória, pornografia, romantismo, tudo inserido de forma a se misturar”, reforça Ricardo, explicando que as fotos não chegam a ser mostradas no espetáculo, embora tenha cenas-base.

Pesquisa de linguagem. Criada em 2003, a partir de um processo de pesquisa sobre o movimento dos membros superiores, a companhia concebeu a técnica MMS – Movimentação dos Membros Superiores, que tem como função estabilizar a articulação e o movimento dos braços. “Trabalhamos o resto do corpo também, mas a técnica dá o suporte para valermo-nos das possibilidades dos membros superiores. A sua segurança corporal, as articulações, um ângulo”, comenta Ricardo.

Para compartilhar os estudos, a companhia participa da palestra sobre os processos de criação e a pesquisa de movimento que desenvolve, nesta quarta, às 14h30. Nesta sexta, às 19h30, os bailarinos reúnem-se na mesa redonda sobre processos criativos em dança e elementos cênicos e ainda ofertam uma atividade prática sobre a técnica MMS, no sábado, às 14h. Todas as atividades serão realizadas nas Escolas de Belas Artes e Dança e Teatro da UFMG.

Agenda

O quê. Espetáculo “A Vida Começa pela Memória”

Quando. Nesta quarta, às 19h30, e sexta, às 12h30

Quanto. Entrada gratuita, sujeita à lotação

Onde. Auditório da Escola de Belas Artes – UFMG (avenida Presidente Antônio Carlos, 6.627, Pampulha)

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