O riso e a ironia como caminhos para a reflexão

Espetáculos de artistas consagrados abrem a temporada das artes cênicas do eixo Rio-SP em Belo Horizonte

iG Minas Gerais | Joyce Athiê |

Família. Antonio e Bruno Fagundes em reunião de família no espetáculo “Tribos”
João Caldas/Divulgação
Família. Antonio e Bruno Fagundes em reunião de família no espetáculo “Tribos”

As próximas semanas do calendário de espetáculos teatrais da capital mineira traz produções artísticas de grandes nomes. Não raro, as criações com artistas de renome dão as caras na cidade, muito embora ainda em quantidades pequenas frente à grande produção.

Abrindo a programação do Teatro em Movimento, Antonio e Bruno Fagundes apresentam “Tribos”, amanhã e sábado. Nos mesmos dias, a Mostra Cine Theatro Brasil traz “Silêncio!” com Suzana Faini. Na semana seguinte, um elenco de veteranos do teatro apresenta “A Última Sessão”.

Por força do acaso, todos se valem dos encontros familiares e de amigos como explosivos necessários para deflagrar questões como a intolerância e os preconceitos da sociedade e fazem uso do humor como forma de levar alguma reflexão ao público. “Por causa da sua inteligência”, o homem é o único animal que ri”, cita Antonio Fagundes.

Em viagem por Nova York, Bruno Fagundes escolheu no “uni-duni-tê” um espetáculo para assistir. Seu dedo apontou para “Tribos”, peça que apresenta o texto da inglesa Nina Raine. A apresentação despertou em Bruno o desejo de montá-la no Brasil pela temática suscitada: a surdez do mundo. “TRIBOs”.

No palco, a personagem de Bruno, um deficiente auditivo, faz a metáfora. “A peça fala para os ouvintes, as pessoas com a habilidade de escutar, mas que optam, de forma inconsciente ou não, a não escutar”, reflete.

Em um emaranhado de situações cômicas, o elenco define o trabalho como uma comédia perversa que se utiliza de um humor cáustico e irônico para falar de situações corriqueiras e cruéis ao mesmo tempo. “Para parafrasear Picasso, ‘a arte nunca deve ser casta’”, comenta Bruno.

Coerente com sua temática, a peça foi apresentada em sua primeira temporada com acessibilidade completa. Uma vez por mês recebiam de uma empresa especializada o serviço de audiodescrição, legenda, libras e espaço para cadeirantes. “Sentimos na pele o significado de inclusão”, reflete Bruno. Para Antonio Fagundes, a acessibilidade não é costumeiramente pensada nas montagens. “Nós também não pensávamos nisso antes, mas isso tem que ser revisto”, confessa.

Em Belo Horizonte, a sessão de sábado contará com tradução em libra. Após o espetáculo, o elenco bate um papo com o público o que, para Antonio Fagundes, é um momento de ouvir.

“SILÊNCIo”. Em “Silêncio!”, um tabu: o texto escrito por Renata Mizrahi aborda a história de jovens judias que vieram do Leste europeu para o Brasil no fim do século XIX e se transformaram nas famosas “polacas”, mulheres que fizeram da prostituição seu meio de vida.

Suzana Faini, atriz que já havia sido convidada para trabalhar a temática no musical “As Polacas – Flores do Lodo”, de João das Neves, mas que na época, por compromissos de agenda, teve que rejeitar, comenta que, ao ler o texto de Renata, deu boas gargalhadas. “Eu gostei muito porque normalmente sou chamada para fazer coisas muito pesadas. Mas percebi também que o espetáculo traz outras questões além de risadas”, explica ela.

Como se aquilo do que não se fala inexiste, Suzana afirma que as pessoas que tiveram contato ou alguma polaca na família preferem não tocar no assunto, por uma questão de preconceito e também por vergonha. Talvez por isso, o elenco não tenha recebido nenhum relato ou comentário do público que, não raro, segundo ela, soluçam de chorar. “É um assunto que incomoda”, reforça.

“A Última Sessão”. Na próxima semana, passa por Belo Horizonte um elenco composto por atores que ajudaram a escrever a história do teatro e da TV brasileira como Laura Cardoso, Nívea Maria, Etty Fraser, além do próprio diretor Odilon Wagner, que reuniu toda essa turma em “A Última Sessão”, uma comédia de costumes sobre o amor na maturidade.

“O espetáculo, embora toque na velhice, não fala apenas disso. Ele aborda o ser humano em sua complexidade”, explica Nívea Maria. Ela reforça que o trabalho mostra que as pessoas na maturidade seguem com o sangue correndo ávido pelas veias. Um exemplo disso é sua parceira de trabalho Etty Fraser, 83. “Envelhecer não é fácil, mas o melhor é pensar que a cabeça está funcionando e colocá-la para trabalhar até o fim da vida”, ri.

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