“O louco de palestra’’ e os outros “loucos”

iG Minas Gerais |

Arranjei nos últimos tempos uma mania nova: ler revistas e jornais velhos para ver se encontro lá alguma pista que me ajude na procura de um caminho. Minha fonte predileta tem sido a revista “Piauí”, imperdível, quase sempre. No número 49, de outubro de 2010, no entanto, o que muito me agradou e divertiu foi o texto sobre “o louco de palestra”, descrevendo aqueles tipos que frequentam palestras e se dedicam a fazer intervenções precedidas invariavelmente da frase “eu gostaria de fazer uma colocação”. Passo a palavra a Vanessa Bárbara, autora do artigo: “O louco de palestra é o sujeito que, durante uma conferência, levanta a mão para perguntar algo absolutamente aleatório. Ou para fazer uma observação longa e sem sentido sobre qualquer coisa que lhe venha à mente. É a alegria dos assistentes enfastiados e o pesadelo dos oradores, que passam o evento inteiro aguardando sua inevitável manifestação, como se dispostos a enfrentar a própria Morte”. Encontrei esses tipos várias vezes durante minha vida mais ou menos pública, isto é, quando tive mandatos ou ocupava cargos no Executivo e participava de debates, sobretudo no período em que enfrentávamos a ditadura. Uns chatos. O primeiro de que me lembro apareceu quando coordenei pelo Sinttel de BH um debate entre Lula, ainda presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, e João Paulo Pires de Vasconcelos, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade, no auditório da Faculdade de Direito da UFMG. Foi difícil driblar o inconveniente. Isso antes dos anos 80 do século passado. Na última vez, apareceu um desses querendo discutir com Marina Silva, em 2010, sobre as inconveniências de ter o deputado José Fernando Aparecido de Oliveira como candidato ao governo de Minas. Quando vi sua inscrição, banquei d. Dilma e não deixei que a mesa respondesse a sua provocação. Marina não entendeu minha intervenção, e foi difícil fazê-la compreender que quem perguntava não queria uma resposta, mas estabelecer uma polêmica quando ela ainda tinha uma coletiva à imprensa e uma viagem a fazer para o Triângulo Mineiro. Agora penso nos “loucos” de artigos, blogs e sites na internet ou nos jornais. A mesma postura, a mesma questão, isto é, fazem comentários que nada têm a ver com o que está escrito e que por isso mesmo não têm como serem respondidos.

Na semana passada, um tal de Fernando fez isso aqui, neste espaço. Insistiu em que votara em Dilma porque não havia opção. Mas eu não tratei disso. Tratei da crise que se abate sobre nós e da pergunta de um amigo sobre o que fazer. E dizia que não sabia mesmo o que fazer. Se eu estivesse defendendo quem disputou com ela, Fernando teria razão. Mas eu tentava mostrar exatamente como estamos sem saída no Brasil. Como todo “louco de artigo”, ele só queria defender por que votara nela. Nada tenho a ver com isso. Ele que se arranje com sua consciência diante do que vem acontecendo.

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