Um longo caminho rumo ao estrelato

Como Claire Underwood, Robin Wright encontrou seu ponto de virada

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Ao ponto. Com seu perfil altivo, Robin Wright vive uma Claire Underwood fria e sensual na medida
Photo Credit: Patrick Harbron
Ao ponto. Com seu perfil altivo, Robin Wright vive uma Claire Underwood fria e sensual na medida

A terceira temporada de “House of Cards”, disponibilizada desde 27 de fevereiro no serviço de streaming Netflix, provou uma tese: como personagem, Claire Underwood é muito mais interessante do que seu par, o (agora) presidente Frank. Mais: comprovou que este é o grande papel da carreira de Robin Wright – que, se nunca foi um patinho feio (por motivos óbvios), até agora foi desperdiçada em papéis aquém de sua capacidade.

Por muitos anos conhecida como a (ex-)mulher de Sean Penn, Robin tem uma trajetória sem tanto brilho em Hollywood, preferindo caminhos independentes e filmes menores.

Num longínquo 1987, despontou em “A Princesa Prometida” e, depois de papéis não muito marcantes, serviu de escada para Tom Hanks em “Forrest Gump”, em 1994. Uma tentativa de colar como uma sweetheart de romances foi “Uma Carta de Amor”, de 1999 – que fracassara junto à decadência de Kevin Costner.

Enquanto outras atrizes de sua geração encontraram papéis que as catapultaram ao estrelato bem antes, caso de Sharon Stone, eternizada sex symbol em “Instinto Selvagem” (1992), e Julia Roberts, como a queridinha das comédias românticas em “Uma Linda Mulher” (1990), Robin teve de aguardar algumas décadas e a maturidade como atriz. Enfim, ganhou um papel, e um perfil, para chamar de seu.

A sorte começou a virar nas gravações da trilogia “Millenium”, em “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, em 2011. Trabalhando com David Fincher, ele a convidou para ser Claire Underwood. Dificilmente outra aposta caberia tão bem no papel. Dona de uma beleza clássica, talhada em linhas retas, Robin tem o perfil ideal para a personagem: sabe se apresentar altiva e discreta, fria e sensual na medida exata.

Desfilando em seus tubinhos, tailleurs e cortes de alfaiataria, do alto de seus 48 anos, na tela ela é nada menos do que espetacular. E tem estado cada vez melhor. E como se não bastasse atuar impecavelmente, ela também dirige: na segunda temporada, é responsável pelo décimo episódio e, na atual, dois capítulos (os turbulentos nono e 12º) são conduzidos sob sua batuta.

Com Robin em cena, nada sobra. Se o Frank de Kevin Spacey precisa romper a “quarta parede” para dizer o que pensa, cada vez mais estereotipado como um (hiper-falante) vilão de desenho animado, Claire induz. Mais esconde do que revela. Em meio a olhares gélidos, somos tentados a descobrir o que se passa naquela cabeça loura (por alguns episódios, surpreendentemente castanha). O criador da série, Beau Willimon, chegou a comentar em entrevistas que, antes de trabalhar com Robin, nunca havia conhecido uma atriz que preferisse cortar diálogos, em vez de falar.

A técnica, aparentemente, deu certo e tem conquistado reconhecimento: em 1995, ela havia sido indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz por “Forrest Gump”, mas foi ser premiada apenas 19 anos depois disso, com (é claro) Claire Underwood. Em 2015, novamente indicada, não repetiu o feito e perdeu para Ruth Wilson.

Para quem já viu a terceira temporada de “House of Cards”, as cenas de Claire demonstram, enfim, o que as feministas pregam com a expressão empoderamento feminino. Robin personifica o poder – e o perfil parece ter pego. Depois do sucesso da primeira temporada como Claire na TV, a atriz viveu no cinema outra mulher envolvida no meio político, desta vez em “O Homem Mais Procurado”, de 2014. Ela manipula, é calculista e, acima de tudo, sabe jogar com o poder. Exatamente o tipo de mulher que a ficção anda valorizando.

O fim da terceira temporada deixa em aberto o futuro de Claire (o trecho adiante pode ser interpretado como spoiler). Se até agora ela era o grande trunfo de Frank, a companheira pronta para o combate, o lance triunfal na última cena abre possibilidades adormecidas. Claire, assim como Robin, também encontrou seu ponto de virada.

Na telona

Algumas passagens de Robin Wright pelo cinema:

- “A Princesa Prometida” – 1987

- “Forrest Gump” – 1994

-“Virgin” (também como produtora) – 2003

- “O Homem Mais Procurado” – 2014

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