Uma escrita afinada com a memória

Ignácio de Loyola Brandão, em novo título, sublinha uma literatura permeada por experiências pessoais

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Inspiração. Ignácio de Loyola Brandão reconhece nos livros as marcas de suas vivências
folha imagem/arquivo/17.4..2003
Inspiração. Ignácio de Loyola Brandão reconhece nos livros as marcas de suas vivências

Ignácio de Loyola Brandão, em “Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos” (ed. Moderna, 66 págs., R$ 41), que lança hoje na Academia Mineira de Letras, traz a público uma narrativa ancorada num caso particular e na relação dele com seu avô, José Maria. Mais uma vez, o escritor revisita a infância para compor uma nova história, como havia feito em volumes anteriores.

“O Menino que Não Teve Medo do Medo” e “O Menino que Vendia Palavras” são outros dois exemplos desse movimento de retorno ao passado que ele emprega para conceber as suas obras, e não apenas naquelas inseridas no segmento infantojuvenil. Conhecido também como cronista, Brandão ressalta que esse recurso é o que move a sua escrita.

“A memória está presente no que escrevo o tempo todo. A literatura, aliás, é feita de realidade, imaginação e memória. Quando lidamos com um livro como ‘Cem Anos de Solidão’ (Gabriel García Márquez), o que se percebe ali se não a presença da memória e da invenção da memória? Essa aproximação é muito comum, e cada dia mais isso se parece mais natural, pois temos essa impressão de que o que acontece amanhã já é memória”, observa Ignácio de Loyola Brandão.

O olhar para o passado e para o presente exercitado por ele não deixa de estar relacionado também ao ofício de jornalista que praticou ao longo de sua vida. O romance “Zero”, que acolhe como tema as diversas formas de repressão praticadas no período da ditadura, aponta isso. “‘Zero’ é uma espécie de memória de um tempo violento que nós não podemos esquecer. Esse livro eu fiz a partir do material que, na época, era impedido de ser publicado na redação que eu trabalhava. Tudo aquilo em que os censores mandavam cortar eu ia guardando”, observa Brandão.

Ele sublinha que, às vezes, “a memória pode ser o presente”. A afirmação, para o escritor, se relaciona ao fato de que voltar ao passado pode revelar muitos aspectos da realidade em que se vive em diferentes momentos. Projetar o que acontecerá num futuro próximo, ao seu ver, também lhe parece um exercício que acompanha essa ideia. Essa noção lhe é motivada pela experiência com o livro “Não Verás País Nenhum”, publicado na década de 80.

“A história que mostro ali é uma espécie de memória do futuro e se passa entre os anos de 2030, 2040. Nesse livro eu falo de um país que sofre com a falta de água, com a escassez de árvores, com a violência. São Paulo é uma cidade impossível de se morar, muito congestionada. É interessante como, de fato, essas coisas estão acontecendo”, afirma ele.

Embora reforce que lidar com a memória, para ele, significa uma ferramenta fundamental, Brandão não se vê como um nostálgico. “Eu acredito que o importante é encarar o agora. Não concordo quando alguém ressalta como alguns padrões no passado eram bem melhores do que hoje. Muitas vezes, é mentira. Alguém se relacionar com outra pessoa, por exemplo, era uma dificuldade. Só para pegar na mão de uma moça se levava um mês”, afirma.

Outra coisa que esclarece em sua escrita são os limites entre o que considera literatura adulta ou infantojuvenil. De acordo com o escritor, isso para ele pouco importa. “Eu escrevo com as mesmas palavras que uso sempre, independentemente do público que achem mais adequado para cada livro meu. Às vezes, me encomendam um título infantil sobre um tema, como sexo. Não faço isso. Só ponho no papel o que já tenho na cabeça”, conclui Brandão.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave