Reencontro com a infância

Ignácio de Loyola Brandão lança “Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos” hoje, na Academia Mineira de Letras

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Autor. José Ignácio de Loyola chega ao seu 41º livro no qual narra uma história que envolve ele o seu avô, já falecido, José Maria
Acervo pessoal
Autor. José Ignácio de Loyola chega ao seu 41º livro no qual narra uma história que envolve ele o seu avô, já falecido, José Maria

Tem um tom de acerto de contas com o passado o novo livro de Ignácio de Loyola Brandão “Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos”, que ele lança hoje na Academia Mineira de Letras. A história narrada desta vez é inspirada num episódio que o escritor viveu, quando criança, em 1945.

Naquele ano, ele desobedeceu o avô, o marceneiro José Maria, ao pegar um conjunto de bolinhas brancas, guardadas numa pequena caixa vermelha, para brincar com outros garotos, na cidade de Araraquara, no interior de São Paulo. Embora, para ele, os objetos parecessem bastante comuns, para o seu avô eles tinham um valor que Brandão não imaginava. Deve-se a isso, ao seu ver, a delicadeza da narrativa que nasce, assim, a partir de uma travessura.

“Há tempos eu vinha tentando escrever esse livro. Cheguei a fazer umas oito versões, mas nenhuma me agradou. Então, eu fiquei anos com essa história na cabeça até conseguir colocá-la no papel. Para mim, isso teve o efeito quase de uma catarse, foi uma espécie de terapia, como aconteceu também com ‘O Menino que Vendia Palavras’”, conta Brandão, que conquistou o prêmio Jabuti em 2008 com esse título.

Durante o bate-papo com o público em Belo Horizonte, o autor vai detalhar o processo de escrita que o tomou quase seis décadas para produzir a obra, localizada na vertente infantojuvenil. De acordo com ele, o que o ajudou a quebrar o bloqueio foi a sua participação num evento literário, em 2013, ao lado da também escritora Marina Colasanti.

No fim do encontro, Brandão conta que uma pessoa da plateia pediu aos dois um momento de contação de histórias, iniciado, na sequência, por Colasanti. Foi após essa experiência que ele teve certeza da possibilidade do livro. “Marina, como sempre, fez uma fala maravilhosa, que deixou todo mundo extasiado. Eu, então, pensei o que contaria e me veio logo aquela história do meu avô. Quando eu terminei, eu notei que algumas pessoas estavam com os olhos marejados e isso me fez entender que a minha história estava pronta, bastava colocar no papel”, diz Brandão.

Do anfiteatro, ele seguiu para um jantar e depois para o hotel onde estava hospedado. Ao invés de dormir, ele registrou à mão, num caderno, o que chegou recentemente às livrarias. “Todo esse tempo que passou me fez entender o que a Lygia Fagundes Telles uma vez respondeu quando lhe perguntaram quanto tempo se leva para escrever um livro. Ela respondeu que uma vida inteira. Depois de passar por isso é que entendi o que dizia Lygia”, afirma.

Reconhecimento. Se “Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos” representa algo de grande importância para Brandão, ele entende que a obra não se resume apenas à satisfação de uma vontade individual e antiga. Por tratar de temas como as relações familiares, a culpa e o perdão, o escritor acredita que a narrativa consegue dialogar com qualquer um que se permitir revisitar a memória e os sentimentos.

“Esse livro, aos poucos, vem me surpreendendo. Todo esse assunto das relações familiares exerce uma fascinação e um encanto que é comovente. Algumas pessoas já vieram até mim e disseram que tiverem um problema com o pai ou com uma tia que elas perceberam que poderiam resolver com uma conversa. Acho que se o livro consegue trazê-las para esse lugar de que se abrir e contar o que de fato aconteceu, reconhecendo que as coisas não são tão graves quanto elas acham, é algo muito legal”, observa.

“A culpa em torno de uma coisa que aconteceu na infância é muitas vezes provocada pelos adultos, eles que inventam e nos transferem isso”, completa.

Ele ainda ressalta no conteúdo da obra o aspecto da busca pela concretização dos sonhos como um dos traços que podem provocar no leitor grande empatia.

Nesse caso, especialmente, ganha projeção o personagem José Maria. Conhecido por ter animado as noites de Matão, município próximo de Araraquara, com um carrossel todo feito de madeira que ele demorou anos para construir sozinho, o avô do autor viu, contudo, todo seu trabalho ruir, consumido pelo fogo.

Brandão relata que daquela estrutura restaram apenas as bolinhas brancas, usadas por José Maria para marcar os olhos dos cavalos, e que depois foram guardadas por ele como uma lembrança daquele ofício. “Meu avô gastou anos fazendo o carrossel, que era o sonho dele. Parece que ele viu o desenho de outro carrossel americano numa revista e quis fazer um tão bonito quanto aquele. Dali ele tirou seu sustento, comprou uma casa, então quando tudo se acabou, o impacto foi grande”, diz o escritor.

Quando deram falta das relíquias de José Maria, Brandão conta que ele não quis culpar nenhum do seus netos e resolveu encerrar o acontecimento dizendo que alguém deveria ter pulado o muro e pegado o que havia dentro da caixa vermelha.

“Um tempo depois, no Natal, ele, que produzia um presente de madeira para cada neto, desde carros a bonecas, me presenteou com aquela caixa. Ele disse que era para eu guardar nela tudo que houvesse de mais precioso na minha vida. A atitude dele deixou claro que ele sabia que era eu quem tinha pegado as bolinhas”, conclui.

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Ignácio de Loyola Brandão lança “Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos”, hoje, às 19h, na Academia Mineira de Letras (rua da Bahia, 1.466, Lourdes). Gratuito

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