Integração é falha no Move

Sistema da capital não ‘dialoga’ com o metropolitano, e usuário é penalizado por ter que pagar duas tarifas

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Precário. 
Passageiros reclamam da situação improvisada do terminal do Move Metropolitano em Justinópolis, Ribeirão das Neves
Moisés Silva
Precário. Passageiros reclamam da situação improvisada do terminal do Move Metropolitano em Justinópolis, Ribeirão das Neves

Se o Move de Belo Horizonte, um ano depois de sua inauguração, ainda divide opinião entre os usuários, quando o assunto é o sistema metropolitano os passageiros são quase unânimes: o modelo piorou, e muito, os deslocamentos até o centro da capital. Na terceira reportagem da série de aniversário do Move, O TEMPO mostra os desafios enfrentados por quem precisa utilizar diariamente o modal gerenciado pelo governo do Estado e as dificuldades resultantes da falta de integração entre os dois.

Estações improvisadas, tumultos nos embarques, ônibus lotados e a longa espera no tempo de baldeação são apenas algumas das queixas de quem mora no entorno de Belo Horizonte e precisa se deslocar até o centro da capital. Para agravar a situação, o fato de os sistemas municipal e metropolitano não dialogarem acaba gerando ainda mais transtornos para muitos passageiros, que por vezes precisam pagar duas tarifas para chegar aos seus destinos. É o caso da atendente Rosinéia de Souza, 38, que mora em Santa Luzia e trabalha no bairro Jaraguá, na Pampulha. Após utilizar uma linha troncal (da estação ao centro) saindo da estação provisória São Benedito, a R$ 3,95, ela desce em uma estação de transferência do sistema metropolitano na avenida Antônio Carlos, entra em outra do Move da capital, mas precisa pagar mais R$ 3,10 para seguir até o trabalho. “Prometeram melhorias com o Move, mas isso aqui piorou demais a vida da gente. Anda lotado, tenho que pagar duas vezes e só chego atrasada no trabalho. Está horrível”, reclama Rosinéia. Indignada, ela conta já ter pulado na rua na frente do ônibus para fazer o coletivo parar para que pudesse embarcar. Na avaliação do consultor em transportes e trânsito Osias Baptista, a falta de conversa entre os sistemas da capital e da região metropolitana só traz prejuízos ao usuário. “É um problema terrível. Quem mora em Ribeirão das Neves e trabalha em Belo Horizonte ou Betim, por exemplo, na realidade é um cidadão metropolitano e fica com o sistema de transporte todo picado simplesmente por uma discussão política”. Baptista afirma que já existe tecnologia disponível para integrações física, operacional e tarifária dos sistemas, preservando as competências e questões relativas às passagens de cada um. Falta, porém, os governos se entenderem. “É possível fazer. Mas nunca foi desejo de ninguém. Quando a Empresa de Transportes e Trânsito (BHTrans) criou o BHBus e o Estado, anos depois, criou o cartão Ótimo, já era claro que não era para ter integração. Um nunca procurou conversar com o outro e ajustar de forma que fosse bom para o usuário”. Procuradas pela reportagem, tanto a BHTrans – que gerencia o Move municipal – quanto a Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas (Setop) – responsável pelo sistema metropolitano –, alegaram que ainda estudam a possibilidade de integração. Daniel Marx, diretor de Transporte Público da BHTrans, afirmou que a estrutura atual tem atendido os usuários, mas que o município tem buscado soluções para que um mesmo cartão possa ser aceito nos dois sistemas. “Estamos trabalhando nisso, e vamos agora buscar junto ao novo governo do Estado uma forma de pelo menos superar essas questões tecnológicas”.

Investimento

Verba. Cerca de R$ 162 milhões foram investidos em terminais do Move Metropolitano. Segundo a Setop, as obras nas estações de Justinópolis, São Benedito e Bernardo Monteiro foram paralisadas em 2014 e a retomada depende da aprovação do orçamento 2015.

Mesmo nome é ponto negativo O batismo do sistema metropolitano com o mesmo nome do de Belo Horizonte foi negativo, na avaliação do consultor em transportes e trânsito Osias Baptista. Isso porque, segundo ele, a ideia seria a integração, mas que até hoje não ocorreu. “Eles (os governos) sempre vão falar que estão tentando. Só que é inadmissível pensar que estão tentando há tanto tempo e ainda não conseguiram”, avalia Baptista. Além disso, o Move Metropolitano tem mais reclamação de usuário e, não havendo distinção, fica tudo parecendo um sistema só.

Saiba mais sobre o sistema metropolitano Raio X. Com 288 ônibus, o Move Metropolitano transporta cerca de 173 mil usuários diariamente. O sistema tem três terminais (São Gabriel e Vilarinho, em Belo Horizonte, e Morro Alto, em Vespasiano) e duas estações provisórias – São Benedito (Santa Luzia) e Justinópolis (Ribeirão das Neves). Linhas. Cada terminal tem três linhas troncais (da estação ao centro) – uma direta, uma paradora e uma hospitais. São 15 linhas, abastecidas por linhas alimentadoras (dos bairros até as estações) da região metropolitana. Com o sistema, 180 linhas deixaram de circular no centro da capital. Origens. O sistema atende 14 cidades: Caeté, Capim Branco, Confins, Jaboticatubas, Lagoa Santa, Matozinhos, Nova União, Pedro Leopoldo, Ribeirão das Neves, Santa Luzia, São José da Lapa, Taquaraçu de Minas, Vespasiano e Sabará. Lagoa Santa. O TEMPO tem mostrado a mobilização de comunidades para a retomada do antigo sistema de ônibus convencionais. Em Lagoa Santa, no mês passado, uma ação civil pública do Ministério Público pediu a retomada. Segundo o órgão, uma definição sobre o cancelamento deve ser apresentada no fim desta semana. Reivindicações. Nesta quinta-feira, vereadores de Lagoa Santa entregarão à Setop propostas sobre o transporte intermunicipal da cidade. Eles cobram uma linha direta até a capital e a mudança das linhas do terminal Morro Alto para o Vilarinho.

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