Aarão Reis, que rua é esta?

Arte no Centro leva 15 coletivos de diversas áreas para o baixo centro de Belo Horizonte entre março e junho

iG Minas Gerais | Joyce Athiê |

Ocupação. 
Sede do grupo Espanca! recebe 15 coletivos artísticos nos próximos quatro meses
Gabriel Caram
Ocupação. Sede do grupo Espanca! recebe 15 coletivos artísticos nos próximos quatro meses

À pergunta sugerida, o ator do Grupo Espanca!, Gustavo Bones, responde: “É o lugar mais potente da cidade. Aqui a gente vê a vida em ebulição”, diz.

Não a toa, a Aarão Reis tem recebido constantemente movimentos culturais de resistência que ocupam a rua com apresentações artísticas, encontros reflexivos, festas carnavalescas, o Duelo de MCs, movimentos espontâneos como a Praia da Estação, além do próprio Teatro Espanca! e o recente Baixo Centro Cultural, que abriu suas portas no lugar do antigo bar Nelson Bordello. E, a partir desta terça, a rua recebe mais uma iniciativa de ocupação e utilização deste espaço com o Arte no Centro, projeto que reúne atividades artísticas que serão realizadas até o mês de junho.

Da Funarte, à praça da Estação, à Serraria Souza Pinto, aos diversos bares e pontos de ônibus da região, aos locais de cultos religiosos e aos cantos da população de rua que mora ou está sempre presente nas imediações, a rua Aarão Reis congrega uma diversidade de pessoas e instituições que se tateiam e convivem, claro, não sem conflito e problemas para suas realizações. “A prefeitura prometeu entregar a reforma da área do viaduto Santa Tereza até 20 de fevereiro. Até agora, nada. Os banheiros, por exemplo, já foram reformados, mas seguem fechados”, diz Pedro Valentim, membro do Coletivo Família de Rua, organizador do Duelo de MCs.

O convívio com todas as particularidades dessa zona “louca-potente-marginal-diversa”, como diz Gustavo Bones, faz parte de uma das preocupações do grupo Espanca!. Além das questões cotidianas, como “chegar ao seu escritório e encontrar uma pessoa dormindo na porta do espaço”, ele reforça a necessidade de reconhecimento da população de rua como sujeitos que existem e que podem ser também fruidores de cultura. Em outros momentos, ele lembra, como o Festival de Performance de Belo Horizonte e a Mostra Marginália +Lab, os moradores de rua foram participantes e produtores de sentidos.

Arte no Centro. Pensando em todo o contexto que cerca sua sede, o grupo Espanca! realiza o Arte no Centro, projeto que durante quatro meses levará para a rua Aarão Reis coletivos e artistas de diversas áreas, selecionados por edital e convidados, em uma programação que contempla oficinas, saraus, lançamento de livro, cinema, teatro, exposições, feira de publicações, debates e ciclo de palestras. Como programação fixa, o evento traz Sarau Vira Lata, Café Ritmo e Poesia e Cinema de Fachada.

A abertura da programação acontece nesta terça, às 19h, com o Sarau Vira Lata, um movimento itinerante que atua nos espaços públicos para difundir a poesia. Além do recital, o poeta Macoy Araí lança seu livro “Visagem”, com textos também de outros poetas – um assassinado e outro jurado de morte –, que se transformam em deflagradores para falar da realidade de aglomerados como o Morro das Pedras, lugar de onde são. Para o mês de março, o sarau vai contar com a presença de Marcelo Yuka, pensador e ativista, um dos fundadores da banda O Rappa.

Na quinta, 12, o Cinema de Fachada, com curadoria do coletivo Teia, fará intervenções noturnas com vídeos de curta duração, na fachada do Teatro Espanca! com obras que propõem relações com o contexto urbano de Belo Horizonte, a partir das 19h.

A programação segue com “Café, Ritmo, e Poesia”, realizado pela Família de Rua, que cria um ambiente intimista em que, a cada edição, um artista convidado apresenta suas músicas e compartilha com o público sua história em um bate-papo informal. O primeiro convidado é o MC Nil Rec, que se apresenta no dia 14, às 17h.

O mês traz ainda a Ocupação Grupo Pigmalião, nos dias 21 e 22, com as apresentações de “Bira e Bedé”, “Seu Geraldo”, “O Quadro de uma Família”, “Verbo” e “O Quadro de Outra Família”. É com o Pigmalião que o grupo Espanca! pretende montar seu primeiro espetáculo de rua.

Fechando março em cinco dias de programação intensa, de 24 a 1º de abril, a mostra “Afazer Queer ou A Ocupação: Arte Viada no Centro!” reúne trabalhos de artes cênicas, ciclo de debates, performances e discotecagem. Como um eco do movimento “Queer” da década de 80 nos EUA que relutava contra o chamado “gay straight”, ou seja, um homossexual discreto, sem trejeitos afeminados, a mostra vem para dialogar, refletir e dar lugar à arte dos “queers’ que congrega gays deficientes, lésbicas negras e uma diversidade mais abrangente que o termo LGTB agrega.

Para Igor Leal, idealizador da mostra, mesmo na arte ainda há uma série de normatividades que não abrem espaço para o “queer”. Além de cinema e performance, a mostra traz também o debate “A Arte e Política, o Corpo Queer na Cena Contemporânea”, com representantes do teatro e das artes plásticas.

Agenda

O quê. Arte no Centro

Onde. Teatro Espanca! (rua Aarão Reis, 542, centro)

Quando: Desta terça a junho

Quanto. R$ 5 e atividades gratuitas. A programação completa está no site www.espanca.com.

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