Muita história para contar

GNT estreia “Do Vinil ao Download”, série que conta a trajetória de André Midani, ex-executivo da indústria fonográfica

iG Minas Gerais | fabiano fonseca |

Aventuras. Midani relembra, com seus convidados, casos de uma vida dedicada à música no Brasil
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Aventuras. Midani relembra, com seus convidados, casos de uma vida dedicada à música no Brasil

A história é longa. Filho de pai árabe e mãe judia, nasceu em Damasco, na Síria. A criação, a partir dos 3 anos, aconteceu em Paris, na França. Testemunha ocular da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Argélia, no início dos anos 50, a oportunidade de um recomeço atravessando o Atlântico aconteceu em 1955 e significou uma transformação na música brasileira.

A vida de André Midani dá, sim, um filme. É o que o canal GNT começa a apresentar hoje, às 23h, com “Do Vinil ao Download”, em forma de série, dirigida por Andrucha Waddington e Mini Kerti. Em cinco episódios – exibidos sempre às terças-feiras –, a produção narra a vida e a obra de Midani, um dos maiores executivos da indústria fonográfica no Brasil, responsável pelo surgimento e evolução de importantes movimentos musicais no país, como a bossa nova e o rock nacional, e seus principais representantes.

“É um registro de vida que o Andrucha e a Mini me dão de uma forma muito profissional e bonita”, conta Midani, 82, em conversa por telefone, ao Magazine.

A partir de encontros com grandes nomes da música brasileira – Gilberto Gil, Jorge Ben, Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, dentre muitos outros –, além de intelectuais, atores, realizadores – Fernanda Montenegro, Cacá Diegues, Nelson Motta... –, Midani e seus convidados relembram passagens de suas vidas e da música brasileira, por meio de casos divertidos, emocionantes e históricos.

“Havia uma cachaça, um conhaque, uma liberdade grande em nossos encontros. Foi muito improviso. Convidamos os artistas e aí começa um papo a partir das memórias deles também, com momentos muito preciosos”, conta o ex-executivo, que entre os anos 50 e 90 teve um papel fundamental na indústria do disco, atuando em gravadoras como Odeon, Phonogram, Philips, Polydor e Warner.

“Acho Midani uma das figuras mais importantes da música brasileira dos anos 50 até os 90. Atuante, foi muito poderoso para os artistas. De uma maneira inteligente, compreendia os artistas, a música, e tinha uma relação muito profunda com seu elenco”.

A opinião do diretor Andrucha Waddington ressalta o papel de Midani enquanto um descobridor de talentos e sonoridades no Brasil. Em sua busca por inovações e algo que mexesse com os jovens no país, ele foi um dos responsáveis pelo surgimento da bossa nova nos anos 50. “Naquela época, tinha 22 anos e havia uma vontade nossa em fazer algo novo. Estávamos arquitetando alguma coisa diferente para todos nós, jovens”, relembra Midani, sobre seus encontros e trabalhos com nomes como João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Nara Leão e Ronaldo Bôscoli.

Com o passar dos anos, Midani foi ampliando seu campo de atuação na música brasileira. No início dos anos 60, após seu desligamento da Odeon – motivado por desentendimentos com o presidente da gravadora, Bill Morris –, Midani fundou a Imperial, vendendo discos de porta em porta. Bem-sucedido na nova empreitada, o executivo instalou a gravadora em outros países, chegando a atuar no México e nos Estados Unidos entre 1964 e 1968.

De volta ao Brasil, Midani seguiu uma trilha de sucesso, gravando e trabalhando com nomes como Elis Regina, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes, Edu Lobo, Jorge Ben, Maria Bethânia, Tim Maia, Raul Seixas, enfim, uma verdadeira constelação da música brasileira em todos os seus gêneros.

“Tem muitas histórias e a gente tenta contar algumas delas na produção. A música brasileira é muito rica e tive o privilégio de conviver com gente muito talentosa”, afirma Midani.

Do vinil ao download. Foram 50 anos de envolvimento direto na indústria fonográfica brasileira, período em que André Midani acompanhou de perto a evolução dos formatos de criação e distribuição da música, os avanços tecnológicos no meio e, em especial, a ascensão e queda das gravadoras.

Afastado da área desde o início dos anos 2000, Midani vê como o avanço tecnológico transformou a produção, distribuição e o consumo de música em todo o mundo, percebendo um lado mais positivo sobre a questão. “A indústria fonográfica tal qual conhecemos não existe mais. O download, o streaming, reduziu a indústria a 40%, 50% do que ela já foi. E hoje você não compra mais música, se faz música também. Acho isso extremamente positivo. Nunca houve tanto espaço para criar e promover sua música”, destaca o ex-executivo.

Para quem marcou seu território profissional na indústria fonográfica, com todas as demandas de uma gravadora, seria no mínimo irônico e contraditório que alguém nessa posição defendesse o download e as novas formas de distribuição musical – que, de fato, são uma dor de cabeça para as grandes gravadoras. Midani pensa diferente e só faz uma única ressalva: “O lado negativo é que não há tanta originalidade, penso. Mas hoje você descobre o rock que se faz na Turquia, o tango produzido na Austrália. O campo ficou mais amplo e o vinil se tornou a voz amorosa dos saudosos”, define ele.

Relançamento

No embalo da série, a editora Nova Fronteira lança, no próximo dia 16, a reedição de “André Midani – Do Vinil ao Download” (304 págs., R$ 39,90), obra que inspirou a produção, lançada originalmente em 2008.

“A indústria fonográfica tal qual conhecemos não existe mais. O download, o streaming, reduziu a indústria a 40%, 50% do que ela já foi”

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