Tensão política leva dólar a atingir valor de R$ 3,13

O dólar comercial, usado em transações no comércio exterior, encerrou o dia com valorização de 2,35%, a R$ 3,129, após atingir a máxima de R$ 3,134 durante o pregão

iG Minas Gerais | Folhapress |

Para o alto.
 Divisa dos EUA não subia tanto desde setembro de 2004, quando foi cotada a R$ 2,940
Marcos Santos/USP Imagens
Para o alto. Divisa dos EUA não subia tanto desde setembro de 2004, quando foi cotada a R$ 2,940

A crise política levou o dólar comercial, usado no comércio exterior, a fechar próximo ao patamar de R$ 3,13 e a Bolsa a recuar 1,6% nesta segunda-feira (9).

O mercado foi influenciado pela divulgação, na última sexta (6), de nomes de investigados na Operação Lava Jato da Polícia Federal, que figuram na "lista de Janot", e pelas manifestações contrárias ao governo da presidente Dilma Rousseff (PT), durante pronunciamento realizado neste domingo (8) em várias cidades do país.

O dólar à vista, referência no mercado financeiro, subiu 2,17%, a R$ 3,116, maior valor desde 28 de junho de 2004. O dólar comercial, usado em transações no comércio exterior, encerrou o dia com valorização de 2,35%, a R$ 3,129, após atingir a máxima de R$ 3,134 durante o pregão. É o maior patamar de fechamento desde 22 de junho de 2004, quando encerrou a R$ 3,134.

A Bolsa também foi afetada pelo pessimismo no mercado financeiro. O Ibovespa, principal índice do mercado acionário, fechou com queda de 1,6%, a 49.181 pontos. Das 68 ações negociadas, 53 caíram, 12 subiram e três fecharam estáveis.

LAVA JATO

Dos políticos com foro privilegiado mencionados, 22 são deputados -18 do PP, dois do PMDB e dois do PT- e 12 são senadores -quatro do PMDB, três do PT, três do PP, um do PSDB e um do PTB. "Há uma crise institucional. Já era difícil o país se recuperar sem crise, só com o movimento de uma oposição mais branda. Mas agora com os problemas junto à própria base, fica mais pesado", avalia Sidnei Nehme, economista e presidente da NGO Corretora.

Com o relacionamento tenso, fica mais difícil para o governo conseguir a aprovação das medidas de ajuste fiscal e, com isso, de alcançar sua meta proposta de superavit primário, de 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto). "Isso pode causar uma mudança de opinião nas agências de classificação de risco, no sentido de achar que o governo não tem apoio. É um problema relevante politicamente", ressalta.

O Brasil atualmente recebe grau de investimento das agências de classificação de risco -uma espécie de selo de bom pagador. Um rebaixamento significaria dizer que o país ficou mais arriscado para se investir.

PANELAÇO As manifestações observadas durante o discurso da presidente Dilma no domingo (8) intensificaram a tensão política. Dilma defendeu os ajustes fiscais e culpou a crise internacional pela situação econômica ruim do país.

Durante a fala, houve buzinaço, panelaço e vaias em ao menos 12 capitais -São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia, Belém, Recife, Maceió e Fortaleza. Nas janelas dos prédios, moradores batiam panelas, xingavam a presidente, enquanto piscavam as luzes dos apartamentos.

"É uma questão preocupante. É a primeira vez em muitos anos que um presidente não usufrui daquela popularidade que carrega nos primeiros 100 dias de governo. Costuma haver uma lua de mel que este ano não teve", afirma Marco Aurélio Barbosa, analista da CM Capital Markets.

"Um ambiente ruim como esse traz mais insegurança ao mercado financeiro. É preciso lembrar que a eleição foi 51% [para Dilma] a 49% [para Aécio Neves, candidato do PSDB], o que mostra um país bastante dividido. Com os ajustes fiscais, a inflação em um patamar elevado, os juros subindo, o desemprego aumentando, a conjuntura se deteriora nos últimos meses", afirma Roberto Indech, analista da corretora Rico.

PROJEÇÕES ECONÔMICAS

Nesta manhã, o Banco Central deu sequência ao seu programa de intervenções no mercado de câmbio, negociando contratos de swap cambial (equivalentes a uma venda futura de dólares). O mau humor dos investidores foi agravado pela pesquisa semanal do Banco Central com economistas, o chamado boletim Focus, divulgado nesta segunda (9). As projeções apontam para uma inflação maior neste ano, a mais alta desde 2003, e retração do PIB em 2015, a mais intensa desde 1990.

"O mercado enxerga um IPCA [índice oficial de inflação] na casa de 8% em 2015 em função do aumento dos preços administrados", diz Roberto Indech, da Rico.

EXTERIOR

Além da crise interna, fatores externos continuam pressionando a moeda americana, em especial a recuperação da economia dos Estados Unidos, que poderia levar o banco central americano a elevar os juros no país em breve.

Um aumento dos juros deixa os títulos americanos -considerados de baixo risco e cuja taxa de remuneração acompanha a oscilação do juro básico- mais atraentes aos investidores internacionais, que preferem aplicar seus dólares lá a levar os recursos para países de maior risco -como emergentes, incluindo o Brasil.

Diante da perspectiva de entrada menor de dólares no Brasil, o preço da moeda americana sobe.

O real registrou a maior desvalorização das 24 principais moedas emergentes moedas. Desse total, metade conseguiu ter valorização ante a divisa americana.

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