Do pop ao jazz: Bennett e a reinvenção de Lady Gaga

Registrada em DVD, amável parceria expõe a versatilidade e a potência vocal de Gaga

iG Minas Gerais | lucas buzatti |

Livre para voar. Lady Gaga credita a Tony Bennett o incentivo para libertar-se das amarras do pop
kelsey bennett/divulgação
Livre para voar. Lady Gaga credita a Tony Bennett o incentivo para libertar-se das amarras do pop

A performance de Lady Gaga na última edição do Oscar dividiu espectadores em dois tipos de espanto. O primeiro, mais bobo, diz respeito à luva vermelha e espalhafatosa que a cantora calçava ao chegar à cerimônia, que fez multiplicar memes pela internet. Ora, qual a surpresa? Afinal, a estética freak dos figurinos de Gaga é antiga conhecida do público. O segundo susto, por sua vez, fez mais sentido: ao subir no palco do Teatro Dolby, em Los Angeles, trajando um austero vestido longo, Gaga protagonizou uma interpretação lírica e impecável de “The Sound Of Music”, tema de “A Noviça Rebelde” (1965), esbanjando falsetes, com maestria, numa postura clássica e cheia de emoção. Mas, apesar de justificável, o espanto não pegou aqueles que já vêm acompanhando a reinvenção de Lady Gaga – sublinhada, principalmente, pela parceria com o emblemático cantor de jazz Tony Bennett, que gerou o DVD “Cheek To Cheek” (Universal, 2014). Com 19 canções e quase uma hora e meia de duração, o registro apresenta ao público uma faceta até então desconhecida da cantora ao mostrá-la executando clássicos do jazz pela primeira vez desde a explosão de sua carreira. O show aconteceu no Lincoln Center, em Nova Iorque, marcando a parceria que começou com a participação de Gaga no disco “Duets II”, de Bennet, cantando “The Lady is a Tramp”. Na primeira música, “Anything Goes”, já fica perceptível a empatia entre os dois, que persiste por todo o show. Apesar de ser o grande destaque do dueto, Gaga em momento algum ofusca Bennett, que mostra um vigor físico e vocal impressionante para um senhor de 88 anos. Pelo contrário, aliás: em todas as músicas a cantora flerta, beija e abraça fraternalmente o parceiro, que não tira o sorriso do rosto. A presença de palco e a singularidade artística de Gaga são mesmo de cair o queixo. Misturando vestidos clássicos com adereços bizarros, como cocares e coroas, ela interage com o parceiro, com o público e preenche o palco de forma deslumbrante. Mas talvez o mais gritante da apresentação seja sua potência vocal – não tão explorada em seu trabalho pop –, evidente em músicas como “Goody Goody”, “Bewitched, Bothered and Bewildered”, “It Don’t Mean a Thing”, “Lush Life” e, principalmente, em “Bang Bang”, que faz a plateia irromper em aplausos, de pé. Um dos intérpretes mais importantes dos Estados Unidos, Bennett mostra-se visivelmente empolgado com o talento da parceira e, após “Let’s Face The Music and Dance”, afirma que aquela é a melhor apresentação de sua vida. Gaga reage no ato, agradecendo o parceiro por “mudar sua vida” ao incentivá-la a cantar jazz. “Foi difícil no começo. Tive que criar um estilo para que as pessoas gostassem de mim. Mas canto jazz desde os 13 anos de idade. Agora, posso voar de novo”, revela a cantora, com os olhos marejados. Fica a impressão de que Lady Gaga é uma espécie de versão musical de outro destaque do Oscar, “Birdman”, lutando para libertar-se das amarras da indústria do pop, que a projetou ao mainstream. Para nosso deleite, porém, nesse caso o final é feliz. 

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