Dança em situação de risco

Sem patrocínio oficial, companhias de balé Stagium e Cisne Negro enfrentam dificuldades ante preços de aluguéis

iG Minas Gerais |

Momento. Com 43 anos de criação, Ballet Stagium enfrenta um momento difícil com alta de aluguéis
Arnaldo J.G. Torres / Divulgação
Momento. Com 43 anos de criação, Ballet Stagium enfrenta um momento difícil com alta de aluguéis

Quem acompanha a dança em São Paulo não deixa de se surpreender com a quantidade de trabalhos que estreiam a cada semana. Essa vitalidade se deve ao Programa Municipal de Fomento à Dança, criado em setembro de 2006, que transformou a cena local, irrigando-a com um fluxo incessante de criações. Todavia, a dança de São Paulo não se restringe aos que vivem desse programa – situação em que se encontram, por exemplo, o Ballet Stagium e o Cisne Negro.São Paulo.

Sem patrocínio que lhes assegure verba para cumprir com a sua folha de pagamentos e com os custos das suas produções, dependem da venda de seus espetáculos para sobreviver. O que sucede quando desaparece a possibilidade de continuar a dançar nos teatros nos quais sempre se apresentaram porque o preço do aluguel das salas de espetáculo extrapola a sua condição financeira? Esta questão ganha uma relevância enorme porque expõe a condição de fragilidade a que ambas estão condenadas pela inexistência de uma política cultural que reconheça a importância do que cada uma tem depois de 43 (Stagium) e 38 anos (Cisne Negro) de trabalho contínuo.

“Para nós, está ficando simplesmente impossível preparar uma programação para o ano, como sempre fizemos”, conta Décio Otero, que fundou e dirige o Stagium junto com Márika Gidali, que complementa: “Nós não pararemos, estamos sempre enfrentando tudo o que vai surgindo, mas os atuais preços dos aluguéis dos teatros estão fazendo de 2015 um ano realmente muito difícil”.

Hulda Bittencourt, fundadora e diretora do Cisne Negro, concorda. “Temos um espetáculo para apresentar no Rio, porque precisamos cumprir um contrato firmado no ano passado, e não estamos encontrando uma casa para nos receber com preços possíveis de serem pagos para o aluguel”, afirma ela. Danny Bittencourt, filha de Hulda, que foi bailarina, e hoje é coreógrafa e divide com ela a direção do grupo, complementa: “É preciso somar a esse quadro preocupante também a ausência de datas para a dança no Municipal de São Paulo”.

Para Hulda, “deveria existir um preço especial para as companhias de dança nesses aluguéis. Onde está o olhar necessário para ajudar a dança a ocupar o seu lugar na sociedade? O Estado também deveria explicar porque pratica uma injusta distribuição de recursos para as companhias de dança em São Paulo. Sempre apoiei os jovens, mas é indispensável reconhecer o que já foi feito”.

Com a determinação que as caracteriza, as duas companhias se preparam para seguir, enfrentando ventos muito pouco a favor. Décio Otero, que acaba de ampliar e atualizar “Choros”, de 1993, inicia uma nova criação, “Canto da Minha Terra”, com estreia prevista para o segundo semestre, na qual fará de Ary Barroso, mineiro de Ubá como ele, seu eixo condutor. Hulda Bittencourt anuncia que o Cisne Negro está com um excelente elenco. “Tem bailarino de todos os tipos, bem do jeito que eu gosto. Continuamos fazendo tudo da melhor maneira possível e não conseguimos aceitar porque está sendo tão difícil dançar no nosso país”.

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