Problemas cotidianos são transformados em transtorno, diz médico

Allen Frances Professor emérito da Universidade de Duke, nos Estados Unidos Ex-diretor do Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM) – documento que define e descreve as diferentes doenças mentais

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Reprodução / YouTube
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Considerado a ‘bíblia’ da psiquiatria, o DSM foi lançado em 1952, com 106 condições identificadas, mas vem sofrendo várias alterações que foram duramente criticadas em livro escrito pelo seu ex-diretor.

Com base nas últimas edições do Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM, na sigla em inglês)que tiveram inúmeras alterações, você acredita que esse documento perdeu credibilidade com os profissionais?

Acredito que sim. Muitos médicos são descuidados ao fazer os diagnósticos psiquiátricos e também rápidos para prescrever determinada medicação desnecessária e potencialmente prejudicial. No seu livro “Saving Normal”, você faz uma crítica pelo DSM-4 ter cedido à pressão das empresas farmacêuticas, e que isso teve um reflexo principalmente na psiquiatria infantil. Quais os principais impactos e riscos que isso pode ter daqui para frente?

Fomos muito conservadores e só introduzimos (no DSM-4) dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos, mas, depois, acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, apesar de o DSM-5 não ter sido influenciado pelas empresas farmacêuticas, elas foram rápidas o suficiente para tirar proveito disso. Se o diagnóstico psiquiátrico pode ser mal utilizado, ele será usado indevidamente. Basicamente, o que acontece é que as empresas farmacêuticas aumentam os seus lucros quando eles convencem as pessoas saudáveis de que elas estão doentes. O aumento nos diagnósticos de hiperatividade e déficit de atenção já são exemplos desse impacto? Como diferenciar um real problema de um transtorno “inventado”?

Talvez, no máximo, 2% das crianças tenham certo tipo de comprometimento da atenção nas atividades que seja suficiente para exigir um diagnóstico e, consequentemente, o tratamento. Nos EUA, 11% de todas as crianças e 20% dos adolescente meninos têm esse diagnóstico. Devemos gastar menos dinheiro em remédios e investir mais em turmas menores e períodos maiores de recreação para, então, as crianças poderem desabafar. Logo após o DSM-4, você afirmou que foi criado um sistema de diagnóstico que “transforma problemas cotidianos em transtornos mentais”. Desses, qual o mais grave e “desnecessário” na sua opinião entre os incorporados no DSM?

Posso citar vários. O esquecimento normal e comum na velhice foi transformado em transtorno neurocognitivo; a gula, agora, pode ser diagnosticada como transtorno de compulsão alimentar periódica; e as birras se tornaram um tipo de transtorno do humor. Como você imagina que pacientes e médicos poderão lidar com essa crescente medicalização da vida? Manter-se sempre informados, ter uma conduta de espera vigilante, não aceitar medicações, a menos que você realmente precise delas, e buscar sempre proteger seus filhos dessa abundância de diagnósticos e de tratamentos imprudentes. Mesmo com regras de comercialização mais rígidas, o consumo de medicamentos para dormir, contra o estresse e até para melhorar o desempenho nos estudos tem crescido a cada ano no Brasil. Na sua avaliação, também existe uma banalização dos problemas e consequente dependência medicamentosa?

Com certeza. Digo isso porque estudos mostram que as pílulas para dormir causam muito mais problemas do que resolvem. Acredito que aprender bons hábitos de sono é, sem dúvida, uma solução muito melhor. Em outra entrevista, você afirmou que estudos demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Entre os pacientes e os laboratórios, onde fica a autonomia do profissional? Os médicos têm muito pouco tempo para conhecer, de fato e bem, seus pacientes, de forma que seja suficiente para encontrar outras soluções não medicamentosas. Além disso, eles são muito influenciados pelos vendedores de remédios que os fazem acreditar que os problemas da vida cotidiana são transtornos mentais causados pelo desequilíbrio químico e, portanto, exigem uma solução química. Como as pessoas devem aprender a lidar com seus problemas cotidianos longe dos remédios?

Respeitando tempo, paciência, tolerância, com apoio familiar, reduzindo o estresse, praticando exercícios físicos e fazendo um acompanhamento com psicoterapia.

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