Propina para o PP era levada colada ao corpo do operador

Segundo delação de Youssef, integrantes da cúpula da sigla recebiam até R$ 300 mil por mês; inquérito do partido deve ser o mais demorado e aponta atuação de quadrilha

iG Minas Gerais | Da redação |

O inquérito que narra a disputa por propinas dentro do PP é o maior entre os 23 abertos na noite de sexta-feira pelo ministro Teori Zavascki, relator dos autos da operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). São, ao todo, 39 investigados, dos quais 32 são parlamentares e ex-parlamentares do PP. E os trechos das delações premiadas usados para embasar o pedido de abertura do inquérito revelam como funcionava o suposto pagamento de propina aos políticos.

Segundo o doleiro Alberto Youssef, o dinheiro desviado de contratos da Petrobras para o pagamento de mesada a parlamentares era transportado em espécie e colado ao próprio corpo de operadores quando o valor não ultrapassava R$ 500 mil. O próprio doleiro teria adotado essa prática. Para montantes maiores, o dinheiro era levado em aeronaves fretadas.

Integrantes da cúpula do partido, conforme as delações, recebiam entre R$ 250 mil e R$ 300 mil por mês. Os outros parlamentares, entre R$ 30 mil e R$ 150 mil. Havia casos de pagamentos quinzenais e até semanais. Repasses extras ocorriam na escolha do líder da legenda, todos os anos, para que o grupo interno que operava o esquema fosse escolhido para comandar a sigla.

Outro relato dos delatores aponta que a defesa jurídica de parlamentares pepistas foi paga com dinheiro desviado da Petrobras.

O ex-ministro das Cidades Mário Negromonte recebeu dinheiro em casa, segundo Youssef. Além disso, quando era ministro, teve os custos de uma aeronave bancados por dinheiro do esquema, como consta no depoimento.

Um dos deputados citados recebeu repasses no valor de R$ 150 mil para custear vacina para o tratamento de hepatite C, conforme o depoimento do doleiro. Parlamentares do PP organizaram uma homenagem a Paulo Roberto Costa, quando ele estava no exercício da diretoria de Abastecimento da Petrobras. Costa era uma indicação do partido, e os contratos de sua área foram a fonte para a propina distribuída aos políticos, conforme as investigações. Na homenagem, o diretor foi presenteado com um relógio de marca Rolex.

O procurador geral da República, Rodrigo Janot, apontou no pedido de inquérito uma “simbiose entre os grupos de políticos que comandavam o esquema ilícito implantado nas diretorias da Petrobras”. Foi por essa razão que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e mais três expoentes do partido acabaram avocados para esse inquérito. A bancada do PMDB no Senado — mais especificamente Renan, Edison Lobão (MA), Romero Jucá (RR) e Valdir Raupp (RO) — movimentou-se para manter Costa na diretoria de Abastecimento.

O inquérito investiga três crimes: corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Esse inquérito é o único que vai apurar o crime de quadrilha envolvendo políticos no esquema de desvios. 

Entenda

O dinheiro ilegal era entregue ao políticos de maneiras distintas, mas a principal forma de pagamento de propina aos políticos era em espécie:

1) Funcionários dos operadores do esquema viajavam com dinheiro escondido em voos comerciais ou fretavam aviões para realizar a entrega. 2) Outra forma de pagamento era por transferências bancárias para pessoas indicadas pelos políticos ou ainda para contas no exterior. 3) O pagamento também era feito por doações oficiais pelas empreiteiras a políticos e partidos em época de campanha eleitoral.<QJ>

Cúpula do PP:

- Quem mais recebia. Segundo relatório do procurador geral da República, Rodrigo Janot, a cúpula do PP recebia a maior parte do dinheiro ilegal. - Grupo A. Além de Janene, os ex-deputados Mário Negromonte (ex-ministro de Cidades), João Pizzolatti, Pedro Corrêa e Nelson Meurer. - Grupo B. Ciro Nogueira, Arthur Lira, Benedito de Lira, Eduardo da Fonte e Aguinaldo Ribeiro (ex-ministro de Cidades)

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