O show deve continuar apesar dos estrondos dos canhões

Em Donetsk, cidade mergulhada numa guerra civil, a população se esforça para levar uma vida normal

iG Minas Gerais | Rick Lyman |

Dedicação. 
O artista Yuriy Dulumbaji espera bastidores a deixa para entrar em cena durante a apresentação de “A Princesa Cigana”
BRENDAN HOFFMAN
Dedicação. O artista Yuriy Dulumbaji espera bastidores a deixa para entrar em cena durante a apresentação de “A Princesa Cigana”

Donetsk, Ucrânia. Quase não dava para ouvir o bombardeio por causa das grossas paredes de pedra do teatro da Academia Nacional de Ópera e Balé de Donetsk. Poderia ter sido apenas um bonde passando pela rua Artem.

Mas, no momento em que Sylva fez sua grande entrada na apresentação de “A Princesa Cigana”, de Emmerich Kalman, no último fim de semana de janeiro, uma explosão violenta fez com que o chão tremesse, mesmo que de leve, como se fosse o tímpano de Deus. “No teatro, há uma regra de que mesmo na guerra as apresentações têm que continuar”, explica Andrey Kirnienko, diretor de propaganda da ópera.

Em um fevereiro de calor atípico, a briga entre os rebeldes pró-Rússia, que controlam a região, e os militares ucranianos nos arredores da cidade – ao norte, oeste e sul – nunca sai da cabeça. Recentemente, pelo menos cinco pessoas morreram sob um fogo cerrado que também danificou um hospital, seis escolas e cinco jardins da infância, dizem autoridades locais.

Pessoas morrem quase que diariamente por causa de bombardeios. A maioria das luzes das ruas está desligada ou piscando em uma espécie de meia-vida, enquanto partes de quarteirões cheios de apartamentos ficam escuros como túmulos.

De alguma maneira, no entanto, as vidas cultural e comercial seguem em frente. “Todo mundo presta muita atenção ao que está acontecendo na linha de frente”, afirma Vitaly Kobrik, diretor assistente de um complexo de esportes para jovens que está lutando para permanecer aberto. “Ninguém presta atenção ao que acontece com as pessoas comuns, que estão tentando viver sob essas circunstâncias.”

Atividades. A ópera, que tem excelente reputação, continua a manter seu calendário de performances nos fins de semana, como faz o teatro ao lado. Muitos cinemas continuam funcionando. Alguns shoppings mantêm suas portas abertas, apesar de a maioria das lojas estar sem luz ou mercadorias.

Em janeiro, no centro de exibição Art Donbass, foi inaugurada a mostra de novos trabalhos do grupo Sindicato dos Jovens Artistas com uma comovente execução da música “I Will Survive”. O título da mostra era “Esperança, Fé e Amor”, e os trabalhos eram, em geral, ensolarados e para cima. Kseniya Shevchenko, chefe do Sindicato, diz que apenas sete dos dez membros do grupo ainda estão em Donetsk.“Tento não deixar a guerra influenciar meu trabalho. É tão cinza, tão sombria”, diz ela.

Perde o riso

Circo. No complexo do Circo Estadual de Donetsk, o diretor Juriy N. Kukuzenko anda pelo picadeiro vazio. Em tempos normais, o circo atraía uma população regional de 5 milhões. Mas, como muitas cidades começaram a se esvaziar por causa da guerra, a audiência encolheu. O circo não tem lucro faz um ano.

Ginastas mirins mantêm treinos Donetsk, Ucrânia. O Palácio dos Esportes Dynamo fica do lado de um lago calmo perto do centro da cidade, em frente ao casco queimado de um café flutuante atingido por uma bomba que também destruiu janelas do ginásio. O local é famoso na Ucrânia por ser onde treinavam estrelas da ginástica como Liliya Podkopayeva, medalha de ouro nas Olimpíadas de 1996. Em um amplo espaço no segundo andar, duas dúzias de garotas, de quatro anos ou mais, fazem uma série de exercícios de aquecimento sob o olhar atento dos treinadores. Em tempos normais, o local têm aulas de arco e flecha, boxe, natação, artes marciais e outras atividades, mas agora só as jovens ginastas aparecem. Entre bombardeios. “Algumas não dormem a noite toda por causa dos bombardeios, mas mesmo assim a gente vem”, diz Liliya Pugachyova, que ajudou a treinar Podkopayeva. “Mantemos as crianças condicionadas, mas também fazemos com que pensem em outras coisas além da guerra”. Antes da guerra, cerca de 60 garotas apareciam para os treinos diários, afirma Kobrik, o diretor assistente. Hoje, apenas 20, dependendo do nível do bombardeio. Trina Bugayova coloca as roupas de inverno em sua neta Asya, 6, depois da sessão de treinamento e a prepara para a longa jornada de volta para casa. “Quando a gente ouve que o bombardeio não está tão ruim, vem para o treino”, explica ela. “Não podemos deixar as crianças sem fazer nada em casa.” “Essas garotas cresceram muito no último ano”, diz Kobrik. “Toda guerra faz as crianças crescerem, especialmente as guerras civis”.

Aos 80 anos, ex-cantora tem a ópera como alento na guerra Donetsk, Ucrânia. Lydya Kachalova passou 30 anos como cantora na ópera e mais 25 como gerente de palco. Ela celebrou seu aniversário de 80 anos em janeiro e fica sentada em seu posto ao lado do palco, alerta à agitação a sua volta. Apesar de morar perto da principal estação de trem, em uma vizinhança bastante prejudicada pela guerra, não perde uma apresentação. “É isso que me ajuda a passar por essa situação”, diz, pressionando o botão que toca um sino que avisa os artistas para tomarem seus postos. Antes da guerra, o coro tinha 75 artistas. Hoje tem menos de 30. Um terço deles fugiu da cidade. Os quatro maestros também foram embora, mas, por sorte, vários músicos podem servir de maestros quando é preciso.

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