Aumenta a luta contra o doping

“Tem até uma frase engraçada, que diz o seguinte. ‘Ser um grande atleta hoje, tem que ter um bom técnico, um bom químico e um bom advogado’”Doutor em educação física

iG Minas Gerais | Ana Paula Moreira/ Bruno Trindade /Débora Ferreira |

Doutor em educação física explica o funcionamento do doping
UARLEN VALERIO - 4.3.2015
Doutor em educação física explica o funcionamento do doping

Até onde um atleta pode chegar para ser campeão? Pode ser por pressão da equipe, por desconhecimento, por dinheiro, mas o certo é que, mesmo com o aumento no combate, muitos atletas ainda são pegos no exame antidoping. O uso de substâncias proibidas deixa a competição injusta e desigual, colocando lado a lado atletas que contam com o próprio esforço com outros que se utilizam de ajuda externa.  

“Muitos atletas não pensam nisso. O problema maior é que temos uma cultura da permissividade da utilização. O atleta que teve uma fase de sucesso muito grande e é pego no antidoping reflete de uma forma negativa, mas ele pensa em usar porque vai ter resultado imediato”, explica o presidente da Comissão Nacional de Controle de Doping da Confederação Brasileira de Atletismo, Thomaz Mattos de Paiva.

O caso mais recente foi do lutador Anderson Silva. Mas na história do esporte, vários atletas já passaram por esta situação. Alguns deram a volta por cima, como a Maurren Maggi, campeã olímpica em salto em distancia 2008, cinco anos após ser flagrada. O atletismo, inclusive, tem outros casos emblemáticos.

“Se fala que atletismo tem muito doping, claro, porque nós combatemos de forma efetiva. Não é que tenha muita dopagem, a gente consegue criar uma gama de resultados, porque estamos buscando onde está o fraudador. Tivemos a oportunidade de cortar cinco ou seis atletas de ponta, conseguimos pegar uma fraude”, relata o Thomaz Mattos, relembrando o maior escândalo de doping, que flagrou vários atletas da seleção brasileira e um técnico em 2009.

Um dos casos de doping mais famosos no mundo é do ciclista norte-americano Lance Armstrong. Após se recuperar de um câncer, ele voltou a competir e foi sete vezes seguidas campeão da Volta da França, de 1999 a 2005. Ele negou o uso de substâncias ilícitas por mais de uma década, mas após ter o uso comprovado, foi banido do esporte. “O Lance Armstrong foi acreditando na própria mentira, e isso gera uma condição  de invulnerabilidade do atleta. Se alguém contestava, ele investia, acionava os advogados, processava o sujeito”, conta Mattos.

Combate. Para deixar as disputas “limpas”, a batalha conta o doping está cada vez maior. “Ultimamente existe um combate maior, por isso toda hora tem um caso de doping”, ressalta Thomaz. O doutor em educação física Fernando Vitor Lima explica um fator que facilita no combate. “Hoje em dia, todos os atletas estão sob as regras da Agência Mundial de Antidoping (Wada, na silga em inglês) são obrigados a se submeter a testes surpresas, fora de temporada, na casa deles, onde quer que eles estejam”.

Uma das funções da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), criada em 2011, é o trabalho de conscientização feito com os atletas. “Uma vez encontrada a substância no organismo, o atleta é responsável por aquilo e está configurada uma ofensa à Lei do Doping”, conta Lima. “Ele não pode alegar que não sabia”, diz Thomaz Mattos.

Outros casos no Brasil Daiane dos Santos. A ginasta foi flagrada com a substância furosemida, utilizada para perda de peso, em julho de 2009. Ela foi suspensa por cinco meses. Maurren Maggi. Em 2004, ela foi pega no exame que acusou a presença do clostebol. Ela alegou ser de um creme cicatrizante, mas pegou suspensão de dois anos do esporte. Jaqueline. A jogadora foi pega perto do Pan de 2007 após tomar um chá para celulite, que tinha sibutramina. Ela foi suspensa por três meses e ficou fora do torneio. Rebeca Gusmão. A nadadora teve que devolver as quatro medalhas que ganhou no Pan de 2007 por ser flagrada com alto índice de testosterona no sangue. Ela foi banida do esporte por reincidência.

Brasileiros farão teste-surpresa para 2016 Brasília. Criada em 2011, a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) promete começar a fazer um trabalho efetivo em 2015. O secretário nacional da ABCD, Marco Aurélio Klein, garantiu que a entidade fará acompanhamento antidoping periódico em 200 atletas de alto rendimento já a partir de março. Os esportistas terão que informar à ABCD o seu paradeiro diário a cada 90 dias, podendo ser submetidos a testes-surpresa a qualquer momento. Atualmente, o Brasil não faz esse tipo de controle, ainda que alguns atletas estejam no grupo de controle das federações internacionais das modalidades. “No Brasil, não eram feitos testes de controle de dopagem fora de competição. Nós vamos começar em 20% e subir ao longo de 2015 e 2016. É uma mudança significativa”, explica Klein. O secretário nacional deixa claro que os atletas que entrarão nesse grupo de controle são aqueles que têm tudo para estar nos Jogos do Rio. Não à toa, a maior parte dos nomes sairá da lista de contemplados pelo Bolsa Pódio.

Banido O norte-americano Ben Johnson quebrou o recorde mundial no 100 m nos Jogos de Seul em 1988, mas dois dias depois foi flagrado no doping por uso de esteroide. Ele perdeu a medalha e o recorde e foi suspenso por dois anos. Ben voltou a correr, mas foi banido em 1993 por reincidência.

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