Mulheres ‘ameaçam’ universo masculino que domina ciência

Maternidade ainda é um dos maiores desafios para a dedicação à produção científica

iG Minas Gerais | Litza Mattos |


Carreira. 
Duília Fernandes, 51, é astrônoma, professora universitária nos EUA e pesquisadora da Nasa
Ed Pfueller
Carreira. Duília Fernandes, 51, é astrônoma, professora universitária nos EUA e pesquisadora da Nasa

Medicações para suavizar os sintomas de doenças como a leucemia, a composição das estrelas e o vírus causador da Aids. Por trás de todas essas descobertas estão mulheres cientistas que se dedicaram à carreira ao longo da história. Com tantos desafios em uma profissão fortemente dominada pelo sexo masculino, a boa notícia é que a participação feminina vem aumentando.

Em 1993, dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) mostravam que de cada cem pesquisadores apenas 39 eram do sexo feminino. No último censo (2010), elas já representavam metade dos 128 mil pesquisadores.

“A luta pelo reconhecimento na ciência é longa e árdua, principalmente nas áreas exatas, onde estão sempre em número menor do que os homens”, analisa a física Gabriela Barreto, 32, pesquisadora da Academia Austríaca de Ciências.

Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo, que conta com 2.928 docentes, 1.297 (44,30%) são mulheres, 334 a menos do que os 1.631 (55,70%) homens. O curso com maior presença feminina é o de terapia ocupacional diurno (96%), e o com menor é engenharia mecânica noturno (9%).

Gabriela, que conseguiu desenvolver uma técnica de fotografia quântica, reconhece que “a ciência é totalmente dominada por homens”, além disso, ela acredita que “a dedicação exclusiva que a carreira exige afasta muitas mulheres”.

Para Gabriela, nomes como o da química Marie Curie e o da matemática Emmy Noether foram importantes para “mudar o rumo das suas áreas e abrir as portas para as mulheres cientistas de hoje”. Segundo ela, porém, as mulheres ainda não descobriram o que seria fazer ciência feminina. “Ainda não encontramos qual o papel feminino na ciência, estamos procurando esse lugar”, afirma.

A astrônoma e pesquisadora associada da Nasa, Duília Fernandes de Mello, 51, não acredita que a mulher se intimide com o número de horas de trabalho. Duília diz que o maior problema é que as mulheres se acanham ao ver o mercado dominado por homens e acham que são menos capazes.

“Não existe incentivo para a menina seguir carreiras científicas e tecnológicas, muitas vezes chamadas de carreiras masculinas. Existem também casos de mulheres que não são promovidas por mérito como os homens são. Eu chamo isso de ‘clube do bolinha’, eles se autopromovem”.

Igualdade Durante uma conferência de ciência (em 2009), uma pergunta é feita por um dos convidados, parecendo sugerir que diferenças genéticas talvez explicariam o fato de existir poucas mulheres no campo da ciência. A resposta do astrofísico norte-americano Neil deGrasse Tyson, foi que “antes de começarmos a falar sobre diferenças genéticas, temos que encontrar um sistema onde oportunidades sejam iguais”.

Prêmio Nobel

Na história do prêmio, iniciada em 1901, apenas 44 dos 851 agraciados nas seis categorias até 2011 eram mulheres. Até essa data, o Nobel da Paz foi a categoria com maior número de mulheres laureadas – 15. O Nobel de Literatura é a segunda categoria com maior presença feminina – 12. Em 2014, a paquistanesa Malala Yousafzay, 17, foi a mais nova vencedora do Nobel da Paz.

Sexismo como em outras áreas A competitividade na carreira científica também é apontada por Duília Fernandes como um desafio que a mulher precisa vencer para conseguir se destacar. “Uma vez adaptada a isso, a mulher consegue se sobressair da mesma forma que o homem. Porém, existe sexismo na ciência assim como na sociedade. É sempre bom lembrar que nem sempre somos avaliadas pelo nosso desempenho e que pode haver preconceito na hora de avaliar o trabalho feminino”, aponta. Eleita a profissional brasileira da área de ciências que mais de destacou em 2013, e carinhosamente conhecida como a Mulher das Estrelas, Duília acredita que, “a partir do momento que tivermos um número maior de mulheres, o preconceito vai diminuir, e o reconhecimento, aumentar”. A cientista Gabriela Barreto conta que outras duas mulheres foram fundamentais para a sua formação: a mãe Sandhi Maria Barreto, também pesquisadora na área da saúde, e a professora Maria Carolina Nemes. “E nunca me esqueço do dia em que eu estava chorando no corredor por causa de um namoradinho, e ela me disse para eu focar no meu trabalho, pois nessa esfera meu esforço seria sempre recompensado”, lembra. Para driblar essas e outras dificuldades, a física diz que sempre se pega imaginando em como usar a feminilidade a seu favor. “Me pergunto diariamente como exercer autoridade sem ser histérica e chata, como ser levada a sério pelo que estou falando e não só pelo tamanho do meu salto, em como ser forte sem deixar de ser delicada”, afirma.

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