Pensamento negro em Belo Horizonte

Grupos na capital mineira se dedicam à pesquisa de linguagens do teatro negro

iG Minas Gerais | Joyce Athiê |

“O Negro, a Flor e o Rosário”. Em cena, heróis e mitos da cultura afrobrasileira contam sua história
Netun Lima
“O Negro, a Flor e o Rosário”. Em cena, heróis e mitos da cultura afrobrasileira contam sua história

Embora os exemplos sejam muitos, a situação de desprestígio ainda é atual. Não é preciso mais fazer uso da tinta branca para que este espaço seja ocupado – se esta não for uma opção estética, mas das primeiros representações do teatro brasileiro até hoje, algumas coisas mudaram e outras permanecem.  

Recentemente, algumas críticas foram atribuídas ao Grupo Teatro Invertido, de Belo Horizonte, que trouxe, em “Noturno”, com direção de Monica Ribeiro e Yara de Novaes, uma personagem negra no papel de ama de leite. Sem muitos adiantamentos, Leonardo Lessa, ator do grupo, ressalta que a próxima temporada, que acontece entre 12 e 29 de março, já conta com uma revisão da dramaturgia, pensada a partir do contato com o público.

Falando da capital, a cidade vive um momento importante na criação cênica negra com um número crescente de coletivos dedicados à temática. “Eu, com 36 anos, não via antes essa ocupação feita por atores negros. Agora é hora de pensar como isso pode virar algo que seja, esteticamente, construído com mais complexidade”, reflete Alexandre de Sena.

Um exemplo a ser citado é a Cia Burlantins, que em sua segunda roupagem, trabalha com elenco exclusivamente negro. “Essa escolha veio da necessidade de colocar o negro no mercado artístico. Mas quem contrata a gente é o branco, então, temos que mostrar capacidade de fazer bons trabalhos”, comenta Mauricio Tizumba, à frente da companhia.

Perguntado se o caminho para a convivência e até para a quebra do racismo não seria a mescla de elencos com atores negros e brancos, Tizumba é categórico. “Sempre quando há a mescla, o negro começa a perder de novo. Antes disso, preciso organizar o lado de cá”, ressaltando que isso não é radicalismo. A atriz Soraya Martins reforça o pensamento. “Toda vez que a gente se reúne para se fortalecer, vem um branco e faz essa sugestão. É importante que a gente se empodere sem que isso seja visto como um racismo ao inverso, o que é uma tolice”, diz.

Um dos trabalhos da Cia Burlantins é a peça “O Negro, a Flor e o Rosário”, de 2008, que traz heróis e heroínas invisibilizados, que passam ao largo da história oficial como Zumbi dos Palmares e Dandara, assim como Cosme e Damião e Nossa Senhora do Rosário, imersos em universo religioso e folclórico. “Prefiro ter um cuidado com a palavra folclore que pode ser vista como algo menor. Prefiro falar em mitos. O uso destes elementos não é um problema. Diz de questões que integram a realidade desses sujeitos e este espetáculo faz isso costurando belamente mitos e religiosidade”, reflete Marcos Alexandre. 

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