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Sem espaço no circuito exibidor brasileiro, Netflix se torna reduto para aclamados documentários internacionais

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Religião. “The Overnighters” surpreende e emociona
mile end films west / divulgação
Religião. “The Overnighters” surpreende e emociona

Com a política de cotas de salas, os documentários nacionais têm garantido um mínimo espaço de exibição nos cinemas. Responsáveis pela maior parte dos cerca de cem longa-metragens que o Brasil tem produzido por ano, eles acabam conseguindo nem que seja uma ou duas semanas no circuito de arte disposto a cumprir sua cota sem precisar de Leandro Hassum. Já documentários internacionais são outra história.  

Há dez anos, era possível conferir ótimos títulos como “Na Captura dos Friedmans” e “Tiros em Columbine” no Usina ou no Belas Artes, em Belo Horizonte. Com a devastadora redução das salas fora do circuito comercial na capital, encontrar um longa de não ficção estrangeiro, bom ou ruim, em cartaz se tornou uma esperança vã.

E uma das poucas, mas boas, alternativas a esse cenário tem sido o Netflix. Apesar do catálogo ainda bastante restrito no país, a locadora virtual se tornou uma das poucas opções legais (leia-se, que não inclui o termo “torrent”) para ter acesso a pelo menos uma fração das ótimas produções que vêm sendo aclamadas nos festivais internacionais. Prova disso é uma trinca de títulos disponíveis no site atualmente e que estavam todos na pré-lista de indicados ao Oscar de melhor documentário deste ano.

Gorilas. Dos três, o único que entrou na lista dos cinco indicados foi “Virunga”. Dirigido pelo inglês Orlando von Einsiedel, o filme se embrenha pela belíssima paisagem do parque nacional do título, localizado no Congo e último refúgio dos gorilas das montanhas no mundo. Apresentando esses adoráveis animais e os personagens que os cercam, o documentário faz o espectador se apaixonar pelo local, e então o joga num clímax em que toda a intriga política mostrada até ali – o parque é visado por uma empresa britânica por possuir jazidas de petróleo – explode em uma guerra civil que dá de dez a zero em qualquer thriller de ação lançado em 2014.

Emocionante, envolvente e à espera de uma versão ficcional que não deve demorar, “Virunga” é uma parceria do próprio Netflix com a Appian Way, produtora do ator e ativista ambiental Leonardo DiCaprio, que acabou de assinar um contrato para mais cinco documentários com a empresa. E a indicação ao Oscar não foi a primeira do grupo: o importante registro “A Praça”, que retratou de dentro as manifestações no Egito em 2013, também foi coproduzido pelo Netflix, indicado ao carequinha e está disponível no catálogo.

Surpresa. Já o excelente “The Overnighters” não foi produzido pela empresa, mas foi adquirido por ela para distribuição em vários países. O documentário dirigido por Jesse Moss conta a história de um pastor de uma pequena cidade na Dakota da Norte que sofre um boom econômico com a prospecção de campos de petróleo no local. Contra a vontade de sua congregação, ele passa a abrigar na igreja sujeitos desempregados, desesperados – e muitos, desajustados (ex-criminosos, dependentes químicos em recuperação) – que vêm para a cidade em busca de trabalho.

Vencedor do prêmio especial do júri no festival de Sundance, “The Overnighters” vai construindo um estudo de personagem desses homens, fazendo você conhecer e se afeiçoar por eles. Mesmo com todos os preconceitos que possa ter contra religião, você começa a acreditar que o pastor realmente está praticando o que Jesus pregou, até o momento em que o conflito dele com seus fiéis se torna insustentável. O ato final traz uma revelação que vai deixar seu queixo no chão e seu coração em pedaços, fechando um arco dramático e temático tão perfeito que nenhum roteirista de ficção seria capaz de escrever.

Vida. Por fim, no próximo dia 19 de março estreia no catálogo “Life Itself”, documentário de Steve James sobre Roger Ebert. Um dos maiores críticos de cinema de todos os tempos, e único da categoria a vencer o Pulitzer, o jornalista faleceu em 2013 após uma longa batalha contra um agressivo câncer de garganta que o deixou sem mandíbula após uma série de cirurgias.

O filme de James acompanha os últimos meses de vida de Ebert, enquanto demonstra com depoimentos e imagens de arquivo como o crítico foi um dos principais contribuidores para a cultura do cinema nos EUA. Sem medo de ser populista e com um texto literário que dialogava com todos os públicos, o longa mostra que Ebert foi um dos maiores não simplesmente porque entendia, mas porque era apaixonado por filmes – suas críticas transformavam cinema em poesia.

Para qualquer cinéfilo, “Life Itself” é tão indispensável quanto uma obra sobre Martin Scorsese – que, não por acaso, é produtor e afirma no documentário que deve sua carreira à Ebert e que um tributo feito pelo crítico nos anos 80 salvou sua vida de uma profunda depressão. Longe de ser um mero “oba oba”, o longa não ignora o ego e a personalidade difícil de seu protagonista, nem as imagens mais angustiantes de seus últimos dias, como a alimentação por sonda. Mas na poesia das palavras do próprio Ebert, “este é o terceiro ato, e é uma experiência”.

E a descrição do momento da sua morte pela esposa Chaz Ebert é de uma beleza tão única que prova que o jornalista reconhecia grande cinema porque teve uma grande vida. Uma vida que prova que a realidade é a melhor matéria-prima do cinema – da qual nós, espectadores, não podemos ser privados.

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