Tragédia contemporânea fala da velhice

Gonçalo M. Tavares engendra obra grega e cerco a Sarajevo

iG Minas Gerais |

O escritor Gonçalo M. Tavares tem 44 anos e já publicou 30 livros
editora foz/divulgação
O escritor Gonçalo M. Tavares tem 44 anos e já publicou 30 livros

SÃO PAULO. Você acabou de levar um tiro e está prestes a morrer. Um deus, no entanto, decide lhe dar uma chance: poderá viver, se encontrar alguém que aceite morrer em seu lugar. Seu pai, um ancião, se recusa. Sua mulher aceita. Parte desta premissa o trigésimo livro do português Gonçalo M. Tavares, “Os Velhos Também Querem Viver”, recém-lançado no Brasil pela editora Foz (88 págs., R$ 24,90). 

Vencedor de prêmios literários como o Saramago (2005) e o Portugal Telecom (2007 e 2011), Gonçalo, mais uma vez, inventa moda. Em “Viagem à Índia”, de 2010, navegou por Camões, num livro em versos. Agora, parte da tragédia grega Alceste, de Eurípedes (480 a.C.– 406 a.C), para criar uma tragédia contemporânea. “O tom da escrita aproxima os dois livros. Mas não sou um entusiasta dos gêneros literários. Não me interessa a divisão clássica de romance, poesia, conto...”, diz Gonçalo à reportagem, por telefone, de Lisboa. “Procuro escrever partindo do princípio de que cada livro, de certa maneira, funda o seu próprio gênero literário.”

O livreto, de 88 páginas, lê-se de um fôlego só. Narra a história de Admeto, um cidadão de Sarajevo, que, à beira da morte, baleado durante o cerco à cidade pelo exército sérvio (nos anos 1990), recebe um favor do deus Apolo. A partir daí, o livro mergulha na tragédia que motivou o autor a escrevê-lo, parodiando Eurípedes. “O cerco à Sarajevo foi uma das tragédias mais terríveis da Europa no século XX. Não foi um cerco de um mês, foram cinco anos”, comenta Gonçalo. “O que me interessava também era refletir a velhice. Na Europa de hoje, existe uma guerra de gerações. Por conta da crise econômica, o que está implícito neste confronto é que os velhos têm que morrer”.

Para Gonçalo, trata-se de uma equação matemática que está, aos poucos, sendo subvertida: A humanidade e o humanismo não podem dispensar a ideia de que uma vida humana é igual a outra vida humana.

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