Balé na rua como protesto

Bailarinos fazem ato contra extinção do Ballet Jovem do Palácio das Artes; cenário é de desinformação na casa

iG Minas Gerais | lucas buzatti |

Bailarina exibe cartaz pedindo a manutenção do Ballet Jovem
Lincon Zarbietti / O Tempo
Bailarina exibe cartaz pedindo a manutenção do Ballet Jovem

A música toca, mas as sapatilhas permanecem no chão. “Queremos dançar, mas não podemos mais”, lamenta o bailarino Mateus Gomes, 23, que integrava o corpo de dança do Ballet Jovem do Palácio das Artes até a última quarta-feira – quando o encerramento do projeto foi anunciado, pela Fundação Clóvis Salgado (FCS). Em dado momento, os jovens dançarinos levantaram-se e começaram a dançar, ocupando a avenida Afonso Pena, em frente ao seu antigo local de trabalho. Com roupas brancas e cartazes, eles pediam pela revisão da decisão da FCS, em protesto marcado pela força e a leveza – tal qual o balé. Enquanto a maioria dos motoristas apoiava a manifestação, um gritou, exaltado: “Vai trabalhar!”. A resposta veio no ato: “É exatamente o que a gente quer”.

Enquanto o protesto acontecia, foram chamados dois integrantes do Ballet Jovem, além de músicos da Big Band e do Grupo de Choro do Palácio das Artes – cujos encerramentos também foram anunciados oficialmente essa semana – para uma reunião com o presidente recém-empossado da Fundação Clóvis Salgado, Augusto Nunes-Filho. A breve conversa com os artistas antecedeu entrevista coletiva, em que Nunes-Filho tentou esclarecer os motivos do encerramento dos projetos, que funcionavam por captação de recursos através da Lei de Incentivo à Cultura.

Segundo o gestor, a Big Band não se apresenta desde setembro de 2014, e o Grupo de Choro, desde dezembro de 2013, por não terem havido novas captações pela gestão anterior, mesmo motivo que levou ao fim do Ballet Jovem. “Fui nomeado há pouco mais de um mês e não consegui vislumbrar possibilidade de dar continuidade ao projeto. Optei pela transparência e responsabilidade de falar e avisar a eles que não tenho como mantê-los aqui”, explicou Nunes-Filho.

Apesar de ter na falta de verba a principal justificativa para o fim do Ballet Jovem, Nunes-Filho afirma ter “uma ideia vaga” do custo do projeto. “Estamos fazendo um diagnóstico, vamos encaminhar ao governo de Minas para que ele faça um balanço, que sai em 90 dias”. “Mas como podem acabar com o projeto que vocês nem sabem qual o custo?”, questiona uma repórter, respondida pelo gestor com uma metáfora. “Se você não tem dinheiro nenhum no bolso, como vai ao supermercado? Eu não tenho mais dinheiro nenhum nessa rubrica para pagar esse tipo de coisa”, diz.

Nunes-Filho explica que a captação para a continuidade do projeto deveria ter sido feito pela gestão anterior, mas não foi. A reportagem tentou falar com a ex-presidente da FCS, Fernanda Machado, que não retornou as ligações.

Durante a entrevista, o gestor negou que a casa estivesse bagunçada, mas, ao mesmo tempo, disse que “as coisas na Fundação eram confusas”. “Assumi há menos de um mês. Estamos chegando na casa agora, formatando o organograma, tendo reuniões com os corpos estáveis, refazendo contato com nossos patrocinadores. Tem toda uma burocracia de gestão a ser cumprida. E, no momento, apenas eu respondo, então vamos com calma”, esquiva.

Além de calma, o gestor pediu paciência. “É uma equipe pequena, trabalhando muito”. Questionado se a Fundação estava engessada por falta de captação, ele respondeu: “Sim e não. A captação feita no ano passado está chegando no fim. Estamos saindo a campo para captar mais patrocínio, é esse o momento que vivemos”.

O secretário de Cultura, Angelo Oswaldo, afirmou ao , no fim da tarde de ontem, que não há dinheiro em caixa. “Tanto o Ballet Jovem quanto a Big Band não são corpos estáveis, que têm previsão orçamentária. Eles são projetos que precisam de captação de recursos, esses recursos se esgotaram e nós não temos como viabilizar os pagamentos mensais”, afirmou Oswaldo, do Rio de Janeiro, onde acompanhou a posse de Zuenir Ventura a Academia Brasileira de Letras. Quanto ao protesto, o secretário disse que está acostumado a viver em ambiente polêmico. “Se não houver polêmica, não é cultural. Apenas acho que eles irem pra rua, de branco, não vai trazer recursos para o projeto”. Oswaldo disse ainda que a secretaria e a Fundação estão abertos ao diálogo. 

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