Tesouro do sol nascente

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

'Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi, é um dos filmes que integram Mostra de Cinema Japonês na Humberto Mauro
FUNDAÇÃO CLÓVIS SALGADO/DIVULGAÇÃO
'Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi, é um dos filmes que integram Mostra de Cinema Japonês na Humberto Mauro

Apesar de uma produção que só perdia em quantidade para os EUA e a Índia, o cinema japonês era um grande desconhecido para o Ocidente até os anos 1940. Isso mudaria após a Segunda Guerra, com a abertura política e econômica do país, e a invasão de sua filmografia nos principais festivais europeus. Títulos como “Rashomon”, que venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 1951, e “Portal do Inferno”, Grande Prêmio do Júri em Cannes em 1953, fizeram o crítico André Bazin afirmar que “a descoberta do cinema japonês é seguramente o acontecimento mais importante para a sétima arte desde o neorrealismo italiano”.

E para quem ainda não conhece essa produção, ou mesmo para seus admiradores, o cine Humberto Mauro traz uma oportunidade imperdível. Dezenove exemplares dessa chamada “era de ouro” da filmografia do Japão pós-guerra serão exibidos até o dia 26 de março na Mostra Cinema Japonês – Parte I. E com um detalhe que faz toda a diferença: todos eles com cópias em película, 16 ou 35mm.

“É uma grande felicidade porque a película tem essa magia, que talvez os mais novos não entendam. Mas é outra relação com o espectador”, descreve o curador da sala, Bruno Hilário. E a disponibilização desse verdadeiro tesouro oriental para o público de Belo Horizonte só foi possível graças a uma parceria com a Fundação Japão e o Consulado Honorário do Japão na capital.

Modernização

Confrontados com a enorme riqueza da produção japonesa pós-guerra, a curadoria optou exatamente pelos filmes que fizessem um retrato do cotidiano, dialogando com um momento histórico que trouxe importantes transformações para o país. “Buscamos fazer um recorte pensando nesse período caracterizado por um Japão em crise, tentando se reconstruir depois da guerra”, pontua.

Essa crise é trazida pela abertura ao Ocidente citada no primeiro parágrafo – que, ao mesmo tempo que ajuda o país a se reerguer, saindo do isolacionismo feudal anterior ao conflito, coloca os valores morais e a tradição japonesa em conflito com a modernização em curso. “Vários filmes vão lidar com o japonês comum em situações cotidianas”, descreve.

Os dois grandes mestres desse retrato, Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi, vão ganhar dias especialmente dedicados a sua obra na mostra – 7 e 8 de março para o primeiro, e 10 e 11 de março para o segundo. Mas muitos outros títulos vão permitir essa viagem no tempo para um Japão em metamorfose.

Hilário cita como exemplos ”De Onde se Avistam as Chaminés”, em que o diretor Heinosuke Gosho registra o dia a dia de uma periferia de Tóquio nos anos 1950. Ou “Vida de Casado”, em que Mikio Naruse acompanha a degradação de um casal confrontado com as dificuldades financeiras do pós-guerra.

Mesmo produções como “Portal do Inferno”, protagonizado por um samurai apaixonado por uma mulher casada no Japão feudal, dialoga com os valores morais em xeque na época. Para além da questão do conteúdo, porém, o curador convida o espectador a mergulhar na proposta estética única desses filmes – na bela fotografia technicolor de “Portal”, nos planos fixos de Ozu – como um refúgio do caos estético da modernidade. “No meio do trânsito caótico, do excesso de imagens, do colapso econômico, os filmes oferecem essa outra lógica, do desejo de uma vida comum, mais ordinária, mas nem por isso menos bela”.

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