Em família

Parceria - Antonio e Bruno Fagundes dividem o palco pela segunda vez

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

Qualidade - Tanto pai quanto filho escolhem seus trabalhos pelo conjunto e não pelo personagem que interpretarão
João Caldas Fº/Divulgação
Qualidade - Tanto pai quanto filho escolhem seus trabalhos pelo conjunto e não pelo personagem que interpretarão

Durante uma folga na agenda de apresentações de “Vermelho”, primeiro espetáculo em que Antonio Fagundes, 65, e seu filho caçula, Bruno, 25, trabalharam juntos, o rapaz resolveu aproveitar para passar uns dias em Nova York, descansando. Acabou voltando com mais trabalho, após se deparar com “Tribos”, texto da dramaturga inglesa Nina Raine, que se tornou a segunda parceria dos dois nos palcos e será apresentada em Belo Horizonte nos 13 (sexta) e 14 (sábado).

“Eu fui só passear mesmo, mas sempre aproveito para ir ao teatro. Assisti a essa peça numa escolha aleatória e acabei me apaixonando pela discussão que ela propunha, os personagens, o humor e a possibilidade de bom teatro que ela representava”, conta Bruno. “Voltei um pouco obcecado e comecei a plantar a ideia na cabeça do meu pai para produzirmos. Estreamos um ano depois”.   Na trama, ele é Billy, um jovem surdo que nasceu numa família de ouvintes. Seu pai, Christopher (Antonio Fagundes), apesar de culto, não admite a surdez do filho e obriga a esposa Beth (Eliete Cigaarini) a ensiná-lo a ler lábios e responder vocalmente. A família disfuncional ainda é composta por Daniel (Guilherme Magon), que sofre de esquizofrenia, e Ruth (Maíra Dvorek), cantora lírica frustrada, ambos irmãos de Billy.   A chegada de Sylvia (Arieta Correa), jovem prestes a ficar surda que ensina linguagem de sinais a Billy, faz com que ele rompa a estrutura de comunicação criada pelo pai. “A narrativa usa a figura desse deficiente auditivo pra falar sobre como nós não nos ouvimos. É uma metáfora da incomunicabilidade, da intolerância, do preconceito. Sobre tribos que não se comunicam”, explica Bruno. “São situações muito engraçadas, mas cruéis, um humor carregado de críticas às nossas relações”.   De todos os intérpretes que Billy já teve, Bruno é o primeiro deles a não ser surdo. O ator precisou passar por uma vivência com profissionais de saúde e pessoas da comunidade surda para desenvolver o personagem. Viveu o processo inverso de um surdo que aprende a se comunicar oralmente e estudou a Linguagem Brasileira de Sinais (Libras).    “Tive todos os receios, mas resolvi encarar o desafio, que se renova a cada apresentação. Preciso ser verossímil, mas não posso comprometer o entendimento do texto para a plateia ouvinte”, diz. Para Fagundes, “Tribos” é o tipo de espetáculo imprescindível nos dias de hoje. “Fala de temas atualíssimos. Um texto completo!”, ressalta.   Em turnê pelo Brasil, a cada cidade é reservada uma sessão acessível, com tradução simultânea em Libras (em BH, será no sábado, 14).   Cooperativa Num universo em que as produções artísticas são cada vez mais dependentes das leis de incentivo e patrocinadores, “Tribos” foi produzida por meio de uma cooperativa e faz o caminho oposto. Toda a equipe de produção do espetáculo – entre atores, técnicos, o diretor Ulysses Cruz e o figurinista Alexandre Herchcovitch – topou investir seu talento e apostar no sucesso da empreitada para receber retorno.   “O patrocínio, seja por qualquer meio, acabou criando uma distância entre o artista e a plateia. Optamos pela parceria como uma postura ideológica para nos aproximar diretamente do público. Depender única e exclusivamente da bilheteria é um risco incomensurável nos dias de hoje e colocar esse projeto em prática vem nos desafiando desde a estreia, mas o resultado é magnífico: estamos nos aproximando dos 200 mil espectadores!”, explica Fagundes, cujo objetivo inicial era romper a média de dois meses em cartaz que o patrocínio proporciona, próximo de completar dois anos de peça.   O ator pretende estender a proposta da cooperativa ao retorno do espetáculo “Vermelho”, ainda este ano, e não descarta a possibilidade de também aplicá-la ao cinema. “Nesse caso, esbarramos com os distribuidores e exibidores. Mas é preciso tentar... Não desisti de encontrar uma saída”, declara.   Depois de praticamente emendar as participações nas novelas “Amor à Vida” e “Meu Pedacinho de Chão” – quando atuou ao lado de Bruno na TV, pela primeira vez – Antonio Fagundes está gravando atualmente a minissérie “Duas Caras”, adaptação do livro homônimo de Milton Hatoum dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que deve estrear no segundo semestre.    Fagundes está no ar na reprise de “O Rei do Gado”, que registrou uma média de 16 pontos nas cinco primeiras semanas em que foi exibida, número maior do que de algumas produções inéditas da Globo, como “Malhação”. E também na novela “O Dono do Mundo”, maior audiência de todos os tempos do canal Viva, segundo o Ibope, que, por outro lado, não foi bem recebida em sua primeira exibição. “Talvez o público na época não tenha percebido a enorme qualidade desse belíssimo trabalho de Gilberto Braga. Fico feliz que tenham revisto suas opiniões”, comenta.   Avesso a internet, redes sociais e celulares “espertos”, Fagundes se considera um “analfabyte” e, nas horas vagas, gosta de ler, ir ao teatro e ao cinema. No ano que vem, completa 50 anos de carreira. Vai ter alguma comemoração? “Nos últimos 50 anos, comemoro diariamente o fato de estar vivo e produzindo. Se alguém achar que alguma coisa do que eu fiz nestes últimos 50 anos valeu a pena, vou ter que comemorar, né?!”, brinca.   Tribos Com Antonio e Bruno Fagundes Sesc Palladium (r. Rio de Janeiro, 1.046, 3214-5350). Dias 13 e 14 de março. Sexta, às 21h30 e sábado, às 21h. R$ 70 (inteira, plateia 1), R$ 60 (inteira, plateia 2) e R$ 50 (inteira, plateia 3).

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