Boca no trombone

iG Minas Gerais | Bárbara França |

Iguais - Patricia Arquette lê seu discurso após vencer o Oscar, no qual defendeu a igualdade de gêneros
ROBYN BECK/AFP
Iguais - Patricia Arquette lê seu discurso após vencer o Oscar, no qual defendeu a igualdade de gêneros

Quando Patricia Arquette subiu as escadas rumo ao palco da cerimônia do Oscar no último dia 22 para receber sua estatueta de melhor atriz coadjuvante pelo filme “Boyhood – Da Infância à Juventude”, muitos comentaristas que acompanhavam a premiação provavelmente discutiam seu vestido preto e branco e o desleixo proposital do coque feito em seus cabelos. Quando ela desceu as escadas, já premiada, o burburinho era outro. Em seu discurso de agradecimento, Arquette denunciou a diferença dos salários de homens e mulheres em Hollywood e reivindicou, de uma vez por todas, a igualdade de gênero. 

Para muitos pareceu óbvio, repetitivo e até mesmo insensato o protesto da atriz que é dona de uma fortuna avaliada em US$ 24 milhões (algo em torno de R$ 72 milhões). Porém, para militantes da causa feminista, o discurso tem valor indiscutível, principalmente quando se pensa no Brasil, um país em que o rendimento médio das mulheres equivale a 72,9% do rendimento dos homens, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e onde elas sofrem cotidianamente violências das mais diversas.   Os sentidos devem estar mesmo em alerta máximo, pois, só nos dois primeiros meses deste ano, as brasileiras foram bombardeadas por toda espécie de discursos preconceituosos. A começar com a repercussão do ator Alexandre Frota sendo aplaudido por fazer apologia e encenar estupro em rede nacional no programa “Agora É Tarde”, apresentado por Rafinha Bastos na Band. Houve também a publicidade de Carnaval de uma marca de cerveja subestimando a vontade feminina e o poder do seu consentimento com o slogan: “Esqueci o não em casa”. Detalhe: a cada 12 segundos uma mulher é violentada, segundo dados da Secretaria de Políticas para Mulheres.    As brasileiras também testemunharam enquete na TV Bahia, afiliada da Rede Globo, sobre a proibição ou não (!) do beijo forçado durante o Carnaval e pasmaram quando até o próprio Ministério da Justiça atribuiu culpa à mulher pelo bullying sofrido após uma bebedeira em campanha para desestimular o consumo de álcool divulgada na internet para todo o Brasil.   Reação Mas, dessa vez, os casos não ficaram “só por isso mesmo”. As peças publicitárias da cerveja foram tiradas das ruas e o Ministério se desculpou. A enquete da TV foi amplamente criticada, e foi criada uma petição online para denunciar Frota e exigir que ele responda sobre suas declarações ao Ministério Público.    Um outro fato significativo aconteceu na última quarta-feira (4), quando aconteceu a primeira audiência do processo movido pela pernambucana Michele Maximino, conhecida como a maior doadora de leite materno do país em 2013, contra o apresentador Danilo Gentilli (à época também à frente do programa “Agora É Tarde”, na Band), por danos morais. Michele foi humilhada de forma gratuita e em rede nacional por conta do tamanho de seus seios (!).   Tais exemplos de resistência podem parecer pequenos perante uma realidade que ocupa a 7ª posição entre os países com maior índice de feminicídio (Agência Patrícia Galvão). Mas olhando da perspectiva do copo meio cheio, tais consequências evidenciam uma sociedade em que grande parte das mulheres não aceita mais se calar. E para saber o que não dá mais para aceitar, o Pampulha perguntou a algumas mulheres de diferentes áreas de atuação quais seriam seus discursos caso estivessem no lugar de Arquette. Confira a seguir nossas “vencedoras” do Oscar.   Miriam Pederneiras, coordenadora da ONG Corpo Cidadão "O que eu diria para o mundo no microfone é que já passou da hora de a gente abrir os olhos para a questão da equidade. A gente tem que parar de taxar o outro como menos pelo sexo, pela cor, pela condição econômica. A dança, ainda que já tenha ganhado um espectro mais amplo, ainda é um lugar majoritariamente feminino. É só você olhar nas escolas de dança, 90% dos alunos são meninas. Há um preconceito com o menino que faz dança. Você não vê um brinquedo de bailarino para os meninos e também tem aquela ideia de que todo bailarino é homossexual. É o machismo imperando e ele é ruim para todo mundo. Artes nas escolas já!”     Cynthia Semíramis, pesquisadora da história dos direitos das mulheres  "Ao agradecer o prêmio, lembraria de todas as mulheres que vieram antes de mim. As que lutaram para que eu tivesse direitos. E convidaria a todas as mulheres para continuarem essa luta. Na Constituição, nós temos os mesmos direitos e oportunidades que os homens. Mas, pra termos igualdade, de fato é preciso continuar lutando. Por políticas públicas que diminuam desigualdades, inclusive desigualdades entre mulheres. Por creches. Por divisão do trabalho. Liberdade sexual. Pela não-aprovação do Estatuto do Nascituro. Pelo direito ao próprio corpo. Pela autonomia da mulher para decidir o que quer fazer de sua vida. E precisamos lutar para que eles não se percam.”   Jô Moraes, deputada federal “Repito a fala da atriz Patricia Arquette sobre a disparidade de salários e acrescento que a mulher tem que chegar a cargos de poder e de representação nas câmaras e nos parlamentos. Além do mais, chamaria a atenção para o que ocorre dentro dos quartos em relação à violência doméstica. Ela precisa ocupar os microfones, porque as vítimas têm vergonha de falar sobre isso. Nos últimos anos, tivemos um aumento no número de mulheres na Câmara Federal de 45 para 51, mas ainda é muito pouco dentro de um universo de 513 deputados. Fora que lá, sofremos preconceitos cotidianamente. Nossa voz ainda não tem o mesmo peso dos outros líderes”.    Notícia boa!  A Câmara dos Deputados aprovou na terça-feira (3) o projeto de lei que torna crime hediondo o  feminicídio – o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher. Para virar lei, só falta a presidenta Dilma Rousseff sancionar. Com isso, a punição fica mais rigorosa.    

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