Deputados poupam empreiteiros

Doze membros da CPI, incluindo o presidente e o relator, receberam doações das investigadas

iG Minas Gerais |

Baixaria. 
Sem perder o tradicional “Vossa Excelência”, deputados quase se agrediram fisicamente e acabaram separados pelos colegas
LAYCER TOMAZ
Baixaria. Sem perder o tradicional “Vossa Excelência”, deputados quase se agrediram fisicamente e acabaram separados pelos colegas

BRASÍLIA. A CPI da Petrobras na Câmara dos Deputados começou seus trabalhos nesta quinta poupando empreiteiros e as principais empresas suspeitas de envolvimento no esquema de corrupção na estatal. Na tumultuada reunião, a primeira com propósito deliberativo da comissão e que registrou bate-boca e discussões, não foi votado nenhum requerimento para quebra de sigilo das empresas e convocação de seus executivos.

Segundo o Ministério Público Federal (MPF), um grupo de empreiteiras contratadas pela Petrobras formou um cartel que pagava propina a agentes públicos para dividir entre si obras da estatal. O esquema envolvia também o pagamento de propina a partidos como PT, PMDB e PP.

Pelo menos 12 dos 27 integrantes da comissão, incluindo o presidente Hugo Motta (PMDB­PB) e o relator Luiz Sérgio (PT-RJ), receberam doações de empreiteiras investigadas na eleição passada de ao menos R$ 3 milhões de Braskem, Engevix, Queiroz Galvão, Odebrecht, UTC, OAS, Andrade Gutierrez, Carioca Engenharia e Toyo Setal.

As transferências foram registradas legalmente na Justiça Eleitoral, e não há notícia de que estejam sob suspeita ou investigação, mas o PSOL havia pedido à CPI o afastamento de deputados que receberam essas doações e o pedido foi negado pela comissão.

A sessão desta quinta foi marcada por muito tumulto e um intenso bate-boca. Houve xingamentos quando o presidente da CPI anunciou que criaria quatro sub-relatorias e que já havia decidido os deputados que as comandariam. Com isso, o relator Luiz Sérgio terá que dividir parte de seu trabalho com parlamentares não alinhados ao governo federal, perdendo o controle da investigação.

Indignado com a condução dos trabalhos, Edmilson Rodrigues (PSOL-PA) chamou o peemedebista de “moleque” e chegou a ser contigo por colegas. Outros deputados se levantaram de suas cadeiras e, com dedos em riste, foram até a mesa da presidência questionar Motta. “Quem manda aqui é o presidente. Não aceito desrespeito. Cabelo branco não é sinônimo de respeito”, reagiu Motta aos gritos. “Não serei fantoche para me submeter à pressão aqui. Não tenho medo de grito. Da terra de onde venho, homem não ouve grito”, emendou.

O peemedebista não havia aceitado o apelo da base governista para que fosse votado primeiro o plano de trabalho e em outro momento se discutisse a criação das sub-relatorias. O PT e outros partidos também reclamaram que não foram consultados antes sobre o assunto. Ao fim da sessão, Motta minimizou a baixaria e afirmou que não representará contra o deputado Edmilson Rodrigues. “Todas as vezes que o bom funcionamento da CPI for prejudicado, iremos exercer nossa autoridade, porque queremos que a CPI funcione”, afirmou. O presidente disse esperar um pedido de desculpas por ter sido chamado de “moleque” e “coronel”.

De medida prática, a comissão aprovou a convocação do ex-gerente da estatal Pedro Barusco como o primeiro depoimento a ser tomado.

Associação

Nomes. O plano de trabalho aprovado nesta quinta não cita nominalmente os empreiteiros. Só diz que é necessário ouvir membros da Associação Brasileira de Engenharia (Abemi), à qual estão associadas as empreiteiras.

Era FHC não entra

Pedido. O presidente da CPI, Hugo Motta, leu ato em que negou o pedido de extensão das investigações ao governo de Fernando Henrique Cardoso, apresentado pelo deputado Afonso Florence (PT-BA). O presidente alegou que o pedido não encontrava respaldo regimental. “Estamos obrigados a nos ater no ato de criação que delimita o escopo da CPI, ou seja, no período de 2005 e 2015”, afirmou. O PT quer usar o delator Pedro Barusco para estender a investigação ao período de FHC, enquanto o PSDB espera que ele fale que se tratou de um caso isolado.

Orientação O deputado Hugo Motta diz não precisar de orientação de Eduardo Cunha para presidir a CPI. Ele negou que o presidente da Câmara esteja orientando a condução da comissão. Na sessão desta quinta, Motta anunciou e aprovou uma série de medidas que contrariam o governo federal, evidenciando ainda mais a crise entre PT e PMDB. “Não preciso da orientação de ninguém para fazer o que preciso fazer”, afirmou Motta ao ser questionado por jornalistas após a sessão que durou mais de cinco horas.

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