Sem remédio para crise epilética

Fábrica que parou produção de medicamento informa que situação estará resolvida até o fim deste mês; ausência dos produtos não foi informada, segundo a Anvisa

iG Minas Gerais |

Em falta. Moradora de Contagem foi a Betim para comprar remédio
DENILTON DIAS / O TEMPO
Em falta. Moradora de Contagem foi a Betim para comprar remédio

Uma “questão de mercado” prejudica pacientes que dependem de medicamentos à base do princípio ativo clobazam, prescritos para combater crises epiléticas. Essa foi a justificativa do laboratório Sanofi para ter interrompido, há cerca de quatro meses, a fabricação dos remédios Urbanil e Frisium, que estão em falta em drogarias e farmácias públicas – que fornecem medicamentos de gratuitamente.

Questionado, o laboratório informou que a fabricação já foi retomada e a previsão é a de que “até o fim de março a situação esteja normalizada”. A empresa não deu mais explicações sobre a decisão de parar, temporariamente, a produção dos remédios.

A Associação Mineira de Epilepsia denuncia que os medicamentos não estão sendo encontrados, e, por serem de uso contínuo, a interrupção imediata pode causar efeitos colaterais e crises.

A dona de casa Silênia Rodrigues Silva conseguiu adquirir a última caixa de clobazam em uma farmácia de Contagem. A filha dela, de 3 anos, tem uma doença neurológica grave e depende do medicamento. “Fiquei sabendo do corte (na produção) do remédio, me desesperei e comecei a telefonar em várias farmácias. Sou moradora de Contagem, mas só encontrei uma caixa em Betim, mas era a última. Mesmo assim, quando cheguei lá, havia uma pessoa esperando em caso de desistência”, conta.

A criança tem consulta marcada para este mês, e a mãe está tão preocupada que já pensa em pedir que a médica substitua o remédio. Uma dificuldade relevante é que a troca da droga precisa ser feita aos poucos.

“A retirada abrupta do medicamento pode levar à morte. O remédio já está no organismo fazendo a ação anticonvulsivante. Quando é retirado sem acompanhamento médico, a pessoa apresenta a crise. A retirada precisa ser lenta e gradual”, detalha Maria Carolina Doretto, presidente da Associação Mineira de Epilepsia. Especialista em neurociência e com doutorado em epilepsia, ela reforça que o medicamento é o principal para pacientes de difícil controle da doença.

Falhas

Conforme prevê o regulamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a paralisação temporária na produção de medicamentos deve ser avisada ao órgão regulador pelo menos 180 dias antes da interrupção das vendas dos remédios. Apesar de o prazo não ter sido respeitado pela empresa que produz o clobazan, o laboratório Sanofi – que fabrica dois remédios à base de clobazan, o Urbanil e o Frisium – não foi penalizado.

De acordo com a agência, a empresa não foi penalizada porque não houve denúncias da falta do medicamento, e a deficiência de abastecimento não foi notificada em nenhum de seus canais de avaliação do fabricante – do mercado ou de fiscalização quanto ao descumprimento da legislação. No entanto, todos os usuários do remédio entrevistados pela reportagem e a Associação Mineira de Epilepsia confirmam ter enviado a denúncia à agência.

De acordo com a assessoria de imprensa da Anvisa, no início do mês passado, o laboratório solicitou a reativação da fabricação do medicamento, e a situação deve ser normalizada em breve. Segundo o laboratório Sanofi, a produção já foi normalizada, e o envio dos primeiros lotes já foi realizado a algumas farmácias. A expectativa do fabricante é a de que o abastecimento esteja normalizado até o fim deste mês.

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