Famílias e mulheres em transformação

Recorte temático dá destaque às obras realizadas pelos premiados cineastas Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Mizoguchi contou histórias das mulheres no Japão
fcs / divulgação
Mizoguchi contou histórias das mulheres no Japão

Para Bruno Hilário, curador da mostra Cinema Japonês, nenhum diretor retratou o espírito de reconstrução do Japão pós-guerra na tela de forma tão contundente quanto Yasujiro Ozu. “O cinema dele é marcado por questões familiares, geracionais, pai e filha, mãe e filho, os reflexos desse processo de abertura política e econômica para o sujeito comum, que ganha esse status de cidadão na tela”, analisa.

É por isso que o cineasta é um dos dois escolhidos para ganhar uma minirretrospectiva dentro da mostra. Começando amanhã e indo até domingo, “Filho Único”, “Pai e Filha”, “Era uma Vez em Tóquio”, “Fim de Verão” e “A Rotina Tem seu Encanto” serão exibidos nesta ordem, cronológica, “para que essa construção temática seja percebida pelo público num caráter evolutivo”.

Sem nunca ter se casado, Ozu viveu com a mãe e cuidou dela até sua morte. Nos seus filmes, ele se preocupa como essa modernização ocidental, a emancipação feminina, da juventude, e como certa flexibilização dos valores tradicionais japoneses trata a geração que ficava para trás. “O interessante é que ele retrata esse trauma político e moral sem buscar a lógica do ressentimento”, avalia Hilário. Para ele, o que interessa ao cinema de Ozu é a passagem do tempo. “A continuidade da vida, essa ideia de vida que segue”, reflete.

Já Kenji Mizoguchi, que ganha sua minirretrospectiva nos dias 10 e 11 de março, ficou eternizado como o cineasta das mulheres. Ele contava que, quando começou sua carreira nos anos 20, havia outros diretores melhores contando as histórias dos homens, então ele ficou com as mulheres.

“Mas ele vai se apaixonar e se aprofundar nessa questão da posição da mulher na sociedade japonesa”, explica o curador. É isso que o espectador vai descobrir em “Oharu – Vida de uma Cortesã”, no sublime clássico “Contos da Lua Vaga”, “A Música de Gion”, “O Intendente Sansho”, “Os Amantes Crucificados” e “A Nova Saga do Clã Tairã”.

Hilário nota que, diferentemente de Ozu, que volta seu olhar para o cotidiano, Mizoguchi nessa fase – que ficou marcada como o auge de sua carreira – vai contar muitas histórias do Japão feudal. “Mas sempre lidando com questões que dialogam com seu tempo, a crise de consciência dos personagens, a crise política e econômica do país”, descreve.

E o que fez com que Mizoguchi fosse abraçado de imediato pelo Ocidente é como ele busca na arte japonesa a inspiração para uma estética que dá muito valor à encenação e ao caráter pictórico da imagem. “Ele é conhecido pelos planos-sequência, muitas cenas em um plano único, pela ênfase grande na relação dos personagens com os objetos, a atenção ao aspecto formal e simbólico da cultura japonesa e por não fazer uso de close-ups”, lista o curador.

Por fim, Hilário destaca ainda na programação a presença de dois longas do cineasta Shôhei Imamura, “Desejo Profano” e “O Profundo Desejo dos Deuses”. “Ele representa o momento de transição dessa era de ouro japonesa para o cinema pós-Ozu e pós-Mizoguchi dos anos 70”, aponta.

A curadoria fez questão de incluir os dois porque eles servem como gancho para essa nova fase que a parte II da mostra vai explorar no segundo semestre.

“Esperamos explorar a ligação entre esses dois momentos e ampliar a discussão também para o cinema japonês contemporâneo, possivelmente com cópias em película também, mesmo que a gente tenha que buscar em outros lugares”, adianta Hilário.

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