Comida de rua (de raiz)

Na ativa há décadas, os carrinhos de sanduíches e trailers de BH chegaram bem antes que a moda dos food trucks

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Flávio Doguinho: o cachorro-quente virou sobrenome do dono
Moisés Silva
Flávio Doguinho: o cachorro-quente virou sobrenome do dono

Com a recente onda de food trucks tomando conta das cidades brasileiras, até pode parecer que a moda é recente. Pois não é. Basta um giro pela noite da capital mineira para descobrir histórias de até meio século de tradição de comidas rápidas a preços honestos, servidas na rua.

E, claro, de muito trabalho de quem se dispõe a ficar acordado a noite toda para abastecer gerações de esfomeados saídos das baladas com hambúrgueres, cachorros-quentes e outros pratos. Lugares por onde o “raio gourmetizador” ainda não passou, como Breik Breik, O-Ko-Milão e Flávio Doguinho e tantos outros.

O caso da Cantina Daspu ilustra bem o cenário: há 17 anos, improvisada em uma Fiorino, a cozinha fornece lasanhas, espaguetes e minipizzas no alto da avenida Afonso Pena. Pelo horário de funcionamento (fica aberta até 6h30 aos fins de semana) e pelo ponto, conhecido pela circulação de prostitutas e travestis, não demorou até o apelido pegar: “Lasanha das Puta” (assim mesmo, no singular).

O que espantaria qualquer empresário é tratado por ali com bom humor: para rebatizar o carro, fizeram um tipo de enquete com os frequentadores e viram que o nome tinha de ser aquele mesmo.

Há cerca de cinco meses, a Fiorino “já cansada de guerra”, como definiu o gerente Marco Antônio Costa, foi substituída por uma Kombi bem mais espaçosa, refrigerada e decorada (com direito a um bigode), como pede a moda.

A comida e o preço seguem os mesmos, avisa Marco Antônio. A clientela, nem tanto. “Muita gente que não conhecia agora vê a Kombi e quer experimentar. Quem já gostava continua vindo”, diz o gerente da Daspu. Em uma noite de fim de semana, segundo ele, são vendidas mais de 200 lasanhas. “Essa onda de food truck só nos trouxe vantagens”, completa.

Warley dos Santos Ribeiro, que bate ponto como chapeiro no Tunay Lanches há oito anos, compartilha da opinião de Marco Antônio. O carrinho de cachorro-quente e hambúrguer na praça da Savassi já completou 18 anos de mercado. “Essa moda recente tem ajudado bastante a gente, o movimento até melhorou. Agora tem até patricinha que vem comer. Até pouco tempo atrás, isso não existia”, diz.

Assim como a Daspu, o Tunay trocou a Fiorino amarela por uma Kombi, essa com uma luz azul do lado de dentro que chama a atenção na madrugada. O movimento ali, segundo Warley, começa a esquentar depois da 1h30 da manhã. “É gente da balada mesmo que faz girar”, afirma.

A fórmula dos baladeiros não funciona para todos os carrinhos de sanduíche. No mais tradicional deles, O-Ko-Milão, o público é bem dividido: famílias até por volta da meia-noite e notívagos até as 5h da manhã, de segunda a segunda.

Se hoje funciona como uma loja física, inicialmente a lanchonete era móvel e circulava pelas avenidas Bandeirantes e Raja Gabaglia e, há cerca de 15 anos, ocupa o mesmo ponto na avenida do Contorno, no bairro São Lucas. Segundo Danilo Couto, gerente da lanchonete há 35 anos, a história é ainda mais antiga e remonta à década de 1960.

“Dos carrinhos de sanduíche que hoje funcionam, provavelmente somos os mais antigos. Tenho clientes que trazem os netos aqui para comer”.

Escondido em uma das esquinas da rua Monte Simplon, no bairro Nova Suíssa, o cachorro-quente do Aritana não está na rota das grandes avenidas e nem é tão conhecido pelo público baladeiro de Belo Horizonte. Ainda assim, tem 25 anos de história para provar que seu produto tem clientela fiel, sobretudo de quem mora na região.

Hoje, o carrinho é tocado pelo genro do fundador, David de Araújo Martins, que prepara mais de 200 cachorros-quentes seguindo a lógica “menos é mais”: pão, salsicha, molho, vinagrete, milho, queijo e batata palha. E nada mais.

Quem passa pela porta do Net Burguer pode nem notar, mas a lanchonete funciona em um trailer embutido na parede. Aberta há 30 anos, a loja lota em dias de jogo do Galo no estádio Independência, próximo dali.

O cardápio de cachorros-quentes do Flávio Doguinho é um desafio aos mais puristas. Com oito opções e ainda acréscimos que incluem abacaxi (além de sanduíches), o carrinho faz sucesso no bairro Gutierrez. Há 23 anos atendendo no mesmo ponto, o dono do carro viu seu sobrenome ser substituído pela profissão: se antes era Gonçalves, hoje é Doguinho mesmo.

Veja o que (e onde) comer:

Cantina Daspu O que pedir. Lasanha de frango, por R$ 11 Onde fica. Avenida Afonso Pena, no quarteirão acima da praça Milton Campos, bairro Serra

Renato Burguer O que pedir. Picanha Burguer (hambúrguer de picanha, queijo, bacon, milho, ovo, presunto, alface, tomate), por R$ 19 Onde fica. Avenida do Contorno, 6.854, Lourdes

Tunay Lanches O que pedir. Cachorro-quente, por R$ 6 Onde fica. Av. Getúlio Vargas, praça Diogo de Vasconcelos, Savassi

Net Burguer O que pedir. Super Net (hambúrguer bovino, hambúrguer de frango, queijo, presunto, catupiry, bacon, ovo, batata, milho, alface e tomate), por R$ 13 Onde fica. Avenida do Contorno, 1.682, Floresta

Aritana O que pedir. Cachorro-quente, por R$ 5 Onde fica. Rua Monte Simplon, 800, Nova Suíssa

O-Ko-Milão O que pedir. O Laçador (hambúrguer bovino de 150 gramas, queijo, bacon, maionese, milho, alface, tomate e batata palha), por R$ 14 Onde fica. Avenida do Contorno, 1.682, Floresta

Flávio Doguinho O que pedir. Dálmata (duas salsichas, molho, queijo, vinagrete, milho, batata palha), por R$ 7 Onde fica. Avenida Francisco Sá, 1.007, Gutierrez

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