Dólar fecha acima de R$ 3 com dúvidas sobre ajuste fiscal do país

O dólar comercial, usado em transações no comércio exterior, fechou em alta de 1,04%, a R$ 3,011, também pela quarta sessão seguida

iG Minas Gerais | Folhapress |

Para o alto.
 Divisa dos EUA não subia tanto desde setembro de 2004, quando foi cotada a R$ 2,940
Marcos Santos/USP Imagens
Para o alto. Divisa dos EUA não subia tanto desde setembro de 2004, quando foi cotada a R$ 2,940

O dólar fechou acima de R$ 3 nesta quinta-feira (5), pressionado por incertezas sobre o ajuste fiscal prometido pelo governo e por apostas de que Banco Central possa interromper, no final do mês, seus leilões diários de contratos de swap cambial (equivalentes a uma venda futura de dólares). Na quarta (4), a moeda atingiu esse valor ao longo do dia, mas a cotação cedeu um pouco no fechamento.

O dólar à vista, referência no mercado financeiro, subiu nesta quinta 0,86%, para R$ 3,004, na quarta alta desta semana. É o maior nível desde 16 de agosto de 2004, quando a moeda encerrou a R$ 3,014. Na semana, a valorização já é de 5,26%.

O dólar comercial, usado em transações no comércio exterior, fechou em alta de 1,04%, a R$ 3,011, também pela quarta sessão seguida. O valor é o maior desde 13 de agosto de 2004, uma sexta-feira, quando a moeda fechou a R$ 3,021. Na semana, o dólar comercial acumula alta de 5,43%.

A instabilidade no cenário político e a perspectiva de rebaixamento da nota do Brasil por agências de classificação de risco continuam a afugentar investidores externos, afirmam analistas. E, com a perspectiva de menor entrada de dólares no país, o preço da moeda sobe em relação ao real.

"Há um time de agência de classificação de risco no Brasil [Standard & Poor´s já desembarcou e Fitch está a caminho, conforme antecipou a Folha de S.Paulo] reavaliando da nota do país. Ao mesmo tempo, o ministro da Fazenda tenta fazer o ajuste fiscal, mas a cena política não deixa", ressalta Fabiano Rufato, gerente-sênior da mesa de câmbio da corretora Western Union.

O ajuste fiscal é um dos pontos mais sensíveis no momento, após o Congresso devolver a medida provisória que aumentava tributos pagos por empresas de vários setores, apresentada pelo governo no fim da semana passada.

Em relatório, Marco Aurélio Barbosa, analista da CM Capital Markets, afirma que a equipe econômica poderia realizar um ajuste fiscal de R$ 87 bilhões sem "passar pelo Congresso", pois 78% dos R$ 111 bilhões pretendidos cabem ao Executivo. "Todavia, esses nada desprezíveis R$ 24 bilhões, caso não sejam aprovados, podem ser decisivos para que a nota de crédito do Brasil seja rebaixada", diz.

O valor é necessário para o governo atingir a meta de superavit primário, a economia feita para pagar juros da dívida pública, de 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto) neste ano.

JURO BÁSICO

O aumento do juro básico (taxa Selic) foi praticamente desconsiderado pelo mercado. Com a alta de juros, o governo tenta controlar a inflação e, ao mesmo tempo, capturar mais investidores estrangeiros em busca de uma remuneração mais alta. O aumento dos juros, em tese, deixa os títulos brasileiros, remunerados pela taxa, mais atraentes.

"A alta da Selic já estava no preço, pois a equipe econômica já tem dado um viés de alta na taxa de juros há algum tempo", diz Fabiano Rufato.

NOTAS DE CRÉDITO

Em setembro do ano passado a agência de classificação de risco Moody's colocou a nota do país em perspectiva negativa. Atualmente, o Brasil tem nota Baa2 na agência, o que indica grau de investimento (selo de local seguro para se investir) com risco de calote moderado. É o segundo acima do grau especulativo, de menor segurança para os investidores (maior risco de calote).

Na Standard & Poor's, o país tem nota BBB-, a última de grau de investimento na agência. Caso seja rebaixado novamente por essa agência, o país passará ao grau especulativo na avaliação da S&P. Na Fitch, a nota brasileira é de BBB, com perspectiva estável.

LEILÕES

Além da preocupação com o ajuste fiscal, a possibilidade de o Banco Central interromper suas atuações diárias no mercado de câmbio faz com que os investidores testem novos patamares para a moeda.

Desde segunda (2), o BC tem feito leilões de rolagem com um volume menor que o habitual, o que leva analistas a acreditar que serão renovados apenas 80% do total de US$ 9,96 bilhões.

"Há uma incerteza sobre se o BC vai ou não renovar o programa de swap cambial diário. Isso ocorre dentro da nova diretriz que o próprio [ministro Joaquim] Levy havia falado, de que não deixaria o câmbio artificialmente precificado. A tendência é que o real se desvalorize", diz Carlos Pedroso, economista sênior do Banco de Tokyo-Mitsubishi.

"Aparentemente, o Banco Central está reforçando isso, à medida que não fez nenhuma intervenção no mercado para segurar a moeda", complementa. O BC tem feito intervenções na economia desde o final de 2013, para impedir um avanço expressivo da moeda americana com a retirada dos estímulos à economia dos EUA e também com o possível aumento da taxa de juros no país.

Nesta quinta, o BC vendeu 2.000 contratos de swap cambial. Foram vendidos 1.700 contratos para 1º de dezembro de 2015 e 300 para 1º de fevereiro de 2016, com volume correspondente a US$ 98,3 milhões.

O BC também vendeu a oferta total no leilão de rolagem dos swaps que vencem em 1º de abril. Até agora, foram rolados cerca de 14% do lote total, que corresponde a US$ 9,964 bilhões.

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