Comédia propõe discussão de gênero inusitada

Vencedor do prêmio do júri na mostra Un Certain Regard em Cannes, “Força Maior” é uma comédia mais incômoda do que engraçada

iG Minas Gerais | california / divulgação |

Filme é uma parábola sobre família em que todos vestem azul
California
Filme é uma parábola sobre família em que todos vestem azul

Um efeito colateral que a revolução sexual ainda não encampou é a superação da ideia de que o homem deve ser sempre um exemplo de heroísmo, coragem e proteção. Mesmo a mais feminista das mulheres não quer ao seu lado um homem frágil, indefeso ou que se acovarde diante de uma ameaça.

“Força Maior”, que estreia hoje no Belas, reflete sobre isso de forma bastante peculiar. O longa acompanha uma família sueca durante uma semana de férias numa estação de esqui. No segundo dia, eles tomam café da manhã em um pátio aberto para uma montanha, onde se inicia uma avalanche que, por um bom momento, parece que vai invadir o local. No instante crucial, a mãe Ebba (Lisa Loven Kongsli) se dirige aonde estão os filhos e tenta protegê-los. Já o marido Tomas (Johannes Kuhnke) corre para salvar a si mesmo.

A ameaça se revela um falso alarme. Todos ficam bem. Tomas volta, as coisas seguem normalmente. Ou quase: Ebba não consegue superar o fato de que o marido abandonou a família à própria sorte.

É nessa tensão incômoda que o diretor e roteirista Ruben Östlund alicerça sua inusitada comédia. A partir daí, não há muita trama em “Força Maior”. O cineasta se limita a acompanhar o resto das férias em cenas quase todas filmadas em plano único, observando o comportamento de seus personagens como um cientista com uma fazenda de formigas ou uma colmeia de abelhas.

A encenação em vários momentos lembra muito o teatro porque a produção sueca é, na verdade, sobre representação e papéis. Tomas se nega a confirmar a versão da esposa de que ele tenha fugido. Isso só se torna um problema para ele na cena em que a ótima atriz Lisa Loven Kongsli relata em detalhes o evento para um casal de amigos – e prova o que diz com o vídeo que o marido fazia no celular durante a avalanche.

É ali que a negação de Tomas termina porque seu papel de marido, macho, provedor foi desmascarado publicamente. E o personagem não sabe mais, então, quem ele é. Algo que Östlund representa visualmente muito bem em enquadramentos que colocam Tomas como uma pequena formiguinha na vastidão branca dos Alpes.

Vencedor do prêmio do júri na mostra Un Certain Regard em Cannes, “Força Maior” é uma comédia mais incômoda do que engraçada. O filme discute questões de gênero e relacionamento fazendo perguntas que a maioria de nós não quer fazer – e pior ainda, sem oferecer respostas definitivas. Será que “banana”, “paspalho” e “bundão” não são tão sexistas quanto “vadia”, “vaca” e “biscate”? 

Outras estreias

Para quem curte longas estrelados por atores famosos, o fim de semana traz muitas opções.

Colin Firth protagoniza “Kingsman: Serviço Secreto”, sátira de filme de espionagem à la 007 baseada nas HQs de Mark Millar e Dave Gibbons, e dirigida por Matthew Vaughn – a mesma equipe por trás de “Kick Ass”.

Já Jesse Eisenberg vive “O Duplo”, na adaptação de Dostoiévsky comandada por Richard Ayoade, do elogiado “Submarine”.

Olivia Wilde, a 13 de “House”, é a morta trazida de volta à vida no terror “Renascida do Inferno”. E Lily Collins, filha de Phil Collins, se apaixona pelo melhor amigo no romance “Simplesmente Acontece”.

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