Triunfo do humor e do intelecto

Estreia de Jon Stewart na direção conta história real de jornalista iraniano

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Tortura. No embate psicológico, o torturador tenta subjugar espírito do jornalista e fazê-lo se assumir como espião
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Tortura. No embate psicológico, o torturador tenta subjugar espírito do jornalista e fazê-lo se assumir como espião

Em 2009, o “The Daily Show”, o mais aclamado e premiado programa de sátira política e jornalística da TV nos EUA, entrevistou o jornalista Maziar Bahari, iraniano radicado na Inglaterra, durante a cobertura das eleições presidenciais no Irã. Dias depois, com o resultado da votação fraudado e Ahmadinejad reeleito arbitrariamente, uma série de manifestações eclodiu no país e, após filmar o assassinato de um civil, Bahari foi preso.

Uma das provas apresentadas para justificar seu interrogatório e tortura por 118 dias foi a entrevista dada para o repórter do “The Daily Show” que, satiricamente, se identificava como um “espião norte-americano”. Porque, se os últimos meses nos ensinaram alguma coisa, é que o fundamentalismo, além de burro e intolerante, não tem o mínimo senso de humor.

Após ser libertado, Bahari escreveu um livro sobre a experiência. E sentindo sua ponta de responsabilidade nessa história, o apresentador do “The Daily Show” Jon Stewart decidiu fazer da adaptação da obra sua estreia como diretor no cinema. O resultado é “118 Dias”, que estreia hoje, e traz Gael García Bernal protagonizando a jornada de Bahari.

Mesmo sem o humor ácido e subversivo que fez do “The Daily Show” um dos melhores programas de TV de todos os tempos, o longa tem a mesma politização e inclemência com a estupidez humana que caracterizam a atração. Stewart mostra os iranianos como pessoas politizadas e agentes de sua história, cerceados por uma ditadura violenta e hipócrita. E não hesita em apontar o dedo para a responsabilidade dos EUA nesse cenário, ao apoiar o governo corrupto do xá Reza Pahlevi entre os anos 1940 e 1970.

Mais do que isso, porém, o diretor busca explorar a ideia de que o maior inimigo do fundamentalismo não são as armas, mas a intelectualidade. “118 Dias” não foca muito na tortura física sofrida por Bahari, e não tem nenhuma imagem de revirar o estômago. O filme está mais interessado em mostrar como os torturadores – ou “especialistas”, como eles são chamados – trabalham para destruir o espírito do jornalista, minando suas forças e sua esperança com interrogatórios repetitivos, ameaças e acusações, até ele começar a acreditar que os ideais e princípios pelos quais está resistindo não valem tanto a pena assim.

Stewart encena isso de forma simples, com a cela escura, claustrofóbica e a venda que Bahari é obrigado a usar representando essa ignorância cega e a privação do intelecto. E as poucas fontes de luz servem como esse fiapo da integridade restante dentro dele a que o protagonista tenta se agarrar. E não por acaso, é essa sagacidade, essa capacidade de autocrítica, inexistente em seu algoz, que ajuda Bahari a resistir no auge de seu cárcere.

Com essa abordagem mais internalizada e psicológica, cabe a García Bernal carregar em seu rosto o terror da situação do protagonista. E o estilo sóbrio e sem muitos arroubos do ator, com um humor sutil que não pede pelo riso, combina com o realismo adotado por Stewart – tornando-se quase esquecível que se trata de um mexicano interpretando um iraniano conversando com compatriotas em inglês.

E se “118 Dias” carece de um diretor mais experiente, capaz de tornar as cenas de Bahari e seu torturador menos cansativas e repetitivas, imprimindo um ritmo que culmine em uma verdadeira catarse, Bernal oferece ao filme ao menos um grande momento. A cena em que o protagonista dança em sua cela, ouvindo “Dance me to the End of Love” de Leonard Cohen em sua cabeça, é daquelas que quase para o longa, ao mesmo tempo em que sintetiza tudo o que ele quer dizer. Não importa quão violento, autoritário ou ignorante o fundamentalismo, existe um poder etéreo e intangível da arte e do espírito humano que ele nunca vai ser capaz de subjugar.

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