Uma homenagem à escola

Yamandu Costa lança “Tocada à Amizade”, com composições e releituras dedicadas à música instrumental brasileira

iG Minas Gerais | fábio corrêa |

Pai de dois filhos, o músico gaúcho tem preferido organizar, no reduto caseiro, reuniões com amigos, nas quais o choro dita o ritmo
IsabelaKassow
Pai de dois filhos, o músico gaúcho tem preferido organizar, no reduto caseiro, reuniões com amigos, nas quais o choro dita o ritmo

Já são 14 temporadas no Rio de Janeiro, para onde o gaúcho de 35 anos se mudou em 2001, mesmo ano no qual arrebatou o público com uma apresentação solo no Free Jazz Festival. Naquela ocasião, um prodígio chamado Yamandu Costa empunhava, em transe, o sete cordas, deixando uma mensagem a quem o testemunhava: o violão no Brasil sobrevivera. Mesmo que talvez forçada, a simbologia se fazia necessária. Um ano antes, morria Baden Powell, sucedendo a perda precoce de Raphael Rabello, em 1995. No entanto, aquela escola – que havia sido levada à excelência por esses dois gigantes do violão brasileiro – continuava, e bem, nas mãos do então jovem violonista.

Nos primeiros anos de Rio, as noites cariocas eram o reduto preferido de Yamandu. “Eu acabei vindo pra cá por causa dessa escola, do choro”, conta Yamandu. “Não é algo que você aprende como linguagem, pois é popular”, explica. Assim, a imersão foi quase natural. “Quando eu cheguei aqui, ninguém me segurava. Eu era um grande boêmio”, conta o violonista. “Mas hoje estou numa dinâmica diferente. Tenho dois filhos pequenos e isso muda a logística da vida, o ritmo”.

Porém, se o pai de família Yamandu Costa teve de abdicar das rodas de choro e canjas nas madrugadas da capital fluminense, a solução foi encontrada dentro de casa. Morador de um apartamento no bairro de Botafogo, não são poucas as vezes em que o violonista assume com prazer o papel de anfitrião e reúne os amigos, a grande maioria músicos de alto calibre como o também sete cordas Rogério Caetano. “Tenho uma varanda para fazer churrasco, um lugar para meus filhos e os filhos dos amigos brincarem, e assim acaba que juntamos tudo”, diz Yamandu. “É uma maneira de manter a tradição do choro dentro de casa, acaba que daqui a pouco as crianças também vão começar a se interessar pela música, e o ciclo vai seguindo”, conta o violonista.

Amizade. O clima intimista das reuniões na casa da família Costa acabou se tornando uma importante influência no novo disco de Yamandu, “Tocata à Amizade”, que acaba de ser lançado pelo selo Biscoito Fino. Nele, o gaúcho é acompanhado pelos amigos Rogério Caetano (violão sete cordas de aço), Alessandro Kramer (acordeom) e Luis Barcelos (bandolim) em 12 faixas que mesclam a sofisticação das composições de câmara com a informalidade da música popular.

O disco veio, por sinal, de uma encomenda feita pelo Museu do Louvre, em 2010,cujo pedido era criar uma composição que retratasse a música popular brasileira. Surgia, assim, a suíte “Impressões Brasileiras”, composta por quatro movimentos, cujos títulos são autoexplicativos: “Choro-Tango”, “Valsa”, “Frevo-Canção” e “Baionga” (mistura de baião com milonga).

Seguem-se à suíte quatro faixas cuja intenção é, segundo Yamandu, “dar uma relaxada”. São elas “Negra Bailarina” e “Boa Viagem”, de composição própria do violonista, mais “Pedra do Leme”, de Raphael Rabello, e “Graúna”, choro tradicional do violonista João Pernambuco, morto em 1945.

Para finalizar, outra suíte: “Retratos”, do compositor Radamés Gnatalli. “Essa é talvez a música mais tocada do Radamés e foi um desafio tentar uma interpretação popular e nova para ela. Por isso, fizemos uma adaptação de vários arranjos, desde o primeiro, que Radamés fez para Jacob do Bandolim, passando pela adaptação da Camerata Carioca e do próprio Raphael Rabello”, conta Yamandu.

A inspiração que Raphael teve na música do gaúcho é constante. “Considero Raphael Rabello o pai da nossa geração, pela influência que ele teve na gente”, reflete Yamandu. “Ele foi um grande responsável por ter revivido essa música tradicional brasileira, trilhando um caminho que não tinha muito a ver com a música que tocava na época que ele começou, nos anos 80”, analisa Yamandu, destacando também o pioneirismo de Raphael em misturar novas linguagens ao choro, como a pegada latina do violão flamenco, também presente em “Pedra do Leme”.

Além das homenagens a Raphael, Radamés e João Pernambuco, “Tocata à Amizade” também traz, no encarte, um desenho dedicado a Dino Sete Cordas, ícone do instrumento no Brasil.

“São músicos que a gente admira e relê da nossa maneira”, conta Rogério Caetano. “E, claro, com muita improvisação e toda criatividade espontânea do choro”, conclui.

Festival Yamandu Costa é uma das apresentações confirmadas para o 8ª FIV – Festival Internacional de Violão, que será realizado na capital mineira entre os dias 10 e 12 de abril. Além do músico gaúcho, está programado, para os três dias, um show do Duo Assad, formado pelos irmãos Sérgio e Odair, além de workshops, concertos e master classes.

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