Milhares de pessoas dão adeus ao opositor assassinado na Rússia

O assassinato de Nemtsov, ex-vice-premier de Boris Yeltsin, grande opositor do presidente Vladimir Putin e um ativista do combate à corrupção, provocou uma onda de agitação na Rússia e foi condenado pela comunidade internacional

iG Minas Gerais | AFP |

Milhares de pessoas se reúnem para se despedirem de líder oposicionista na Rússia
KIRILL ZYKOV / AFP
Milhares de pessoas se reúnem para se despedirem de líder oposicionista na Rússia

Milhares de pessoas compareceram nesta terça-feira ao Centro Sakharov de Moscou para o funeral do opositor russo Boris Nemtsov, assassinado na sexta-feira passada na capital russa, na última homenagem antes do sepultamento em um cemitério moscovita.

"Era alguém de quem eu era próxima. Queria dizer adeus. Era um homem que tinha princípios, um homem carismático. Pouco importa quem o matou, é uma perda irreparável", declarou Maria Koniakova, uma psicóloga que, como muitos outros, não escondia sua tristeza.

O corpo de Boris Nemtsov foi velado por quatro horas no Centro Sakharov, um museu consagrado aos direitos humanos e ao dissidente soviético e prêmio Nobel da Paz Andrei Sakharov. Mas a multidão que formava uma fila de centenas de metros era grande demais e muitos não puderam se despedir do opositor.

Ao fim da homenagem a Nemtsov, o cortejo fúnebre partiu em direção ao cemitério Troiekurovkoie de Moscou.

A mãe do opositor, que acredita que seu filho tenha sido morto por ordem do presidente Vladimir Putin, segundo declarações em uma entrevista, permaneceu ao lado do caixão aberto, segundo a tradição ortodoxa.

O assassinato de Nemtsov, ex-vice-premier de Boris Yeltsin, grande opositor do presidente Vladimir Putin e um ativista do combate à corrupção, provocou uma onda de agitação na Rússia e foi condenado pela comunidade internacional.

Várias personalidades visitaram o local, como o embaixador dos Estados Unidos, John Tefft, o ex-primeiro-ministro britânico John Major, assim como Mikhail Kasynov, ex-premier de Vladimir Putin, e a viúva de Yeltsin.

'Putin é culpado, mas nós também'

O presidente Putin não compareceu, mas enviou um representante, enquanto o primeiro-ministro Dmitri Medvedev enviou uma coroa de flores.

Vários membros do governo estavam presentes no Centro Sakharov, entre eles os vice-primeiros-ministros Arkadi Dvorkovich e Serguei Prijodko.

A Rússia vetou a entrada no país da eurodeputada Sandra Kalniete (Letônia) e do presidente do Senado polonês, Bogdan Borusewicz, que desejavam comparecer ao funeral de Nemtsov.

A União Europeia (UE) considerou que a decisão de Moscou foi tomada por "razões aparentemente arbitrárias". A porta-voz do serviço diplomático europeu, Maja Kocijanicic, a chamou de "uma clara violação dos princípios básicos".

O embaixador da União Europeia, Vygaudas Usackas, apresentou nesta terça-feira condolências à família de  Boris Nemtsov "em nome de todos os embaixadores dos países da UE, e em nome dos europeus que não foram autorizados a participar da cerimônia de adeus".

O Parlamento polonês prestou homenagem a esta "principal figura da oposição russa", que disse esperar que seus assassinos não permaneçam impunes.

"Viemos porque nos sentimos envergonhados por nosso país, nossa população, por permitir que algo assim aconteça", afirmou Dmitri Afanasiev.

"É culpa de Putin, mas também é nossa", completou o morador de Moscou.

"É um choque. O sistema o matou", disse outro moscovita, Vladimir Shlamin.

Navalny acusa o Kremlin

O principal opositor ao Kremlin, Alexei Navalny, condenado no final de fevereiro a 15 dias de prisão por distribuição "ilegal" de panfletos no metrô de Moscou, não foi autorizado pela justiça a comparecer ao velório de seu companheiro de luta.

Navalny acusou os serviços especiais russos e o Kremlin de estarem por trás do assassinato em uma mensagem em seu blog.

"Boris era um dos homens públicos que causava mais problemas ao Kremlin, (...) que denunciava a corrupção do regime de Putin e seu gabinete", afirmou.

O ativista de defesa dos direitos humanos Sergei Kovalev afirmou que é óbvio quem foi o mentor do assassinato de um dos críticos mais ferrenhos da interferência de Moscou na Ucrânia.

"Nós o assistimos todos os dias na televisão", completou, em uma referência implícita a Putin e seus aliados.

Nemtsov levou vários tiros antes da meia-noite de sexta-feira quando caminhava por uma ponte próxima do Kremlin ao lado de sua companheira, a modelo ucraniana Ganna Duritska.

Putin disse que a morte de Nemtsov foi um "assassinato por encomenda" e foi uma "provocação". Ele prometeu fazer todos os esforços para encontrar os responsáveis pelo crime.

Familiares e amigos de Nemtsov destacaram que ele estava preparando um relatório sobre a presença de soldados russos no leste da Ucrânia, enquanto Moscou nega qualquer envolvimento de sua tropas ao lado dos separatista. O opositor havia confessado que temia ser assassinado na Rússia.

O presidente ucraniano Petro Poroshenko condecorou Nemtsov em caráter póstumo com a Ordem da Liberdade.

"Para os ucranianos, Boris será para sempre um patriota russo e um amigo da Ucrânia. Ele provou com sua vida que é possível ser as duas coisas", afirmou.

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