MPF denuncia 17 membros de quadrilha que movimentava R$ 14 mi por mês

Bando trazia a droga da Bolívia, principalmente em pequenos aviões, e desembarcava em pistas de pouso clandestinas na zona rural da região

iG Minas Gerais | JOSÉ VÍTOR CAMILO |

Quadrilha movimentava mensalmente uma tonelada de cocaína
Polícia Federal/Divulgação
Quadrilha movimentava mensalmente uma tonelada de cocaína

Dois bolivianos, um libanês e outras 14 pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal (MPF) em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, por integrarem uma quadrilha de tráfico internacional de drogas que movimentava cerca de uma tonelada de pasta base de cocaína por mês, o que equivale a cerca de R$ 14 milhões mensais. As denúncias foram feitas com base nos crimes apurados pela Operação Krull, da Polícia Federal (PF), realizada em novembro do ano passado e que cumpriu 16 mandados de prisão e outros 15 de busca e apreensão em Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Goiás.

Ainda de acordo com o MPF, os criminosos traziam a droga da Bolívia, geralmente em pequenas aeronaves, e as descarregavam em pistas de pouso clandestinas na zona rural de municípios do Triângulo Mineiro. A droga também entrava no país por terra,  passando pelo município de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. As pistas de pouso ficavam próximas ou dentro de propriedades rurais que eram usadas para armazenamento das drogas e, depois, para distribuição aos compradores finais, a maioria nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

O órgão denuncia os envolvidos por tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico e formação de organização criminosa. Foram apreendidos ao longo dos 18 meses de investigação 721 quilos de cocaína, 400 mil dólares americanos e 400 mil reais, além de bens como veículos e aeronaves.

A denúncia ainda aponta que o bando era chefiado por um homem que possuía uma propriedade na zona rural de Iturama, município localizado a cerca de 230 km de Uberlândia, juntamente com sua esposa, uma boliviana também denunciada pelo MPF. O líder da quadrilha já tinha condenações que ultrapassavam os 25 anos de penas a serem cumpridas, sendo que ele está preso desde setembro de 2014 na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem. Ele foi detido na Operação Athos, que desmantelou outro esquema de tráfico internacional em Juiz de Fora.

Ainda de acordo com o órgão, o homem que é tido como chefe do grupo também já chegou a ser investigado pela agência americana antidrogas (Drug Enforcemente Administration), que o taxou como de "alta periculosidade". Desde a sua prisão, os esquemas da quadrilha passaram a ser comandados por sua esposa e irmã, que acabaram presas na operação Krull, em novembro. 

A prisão preventiva de todos os acusados é pedida pelo MPF na denúncia, que foi recebida pela Justiça Federal de Ituiutaba no último dia 19 de fevereiro.

Como funcionava

Ainda conforme o MPF, quando as investigações começaram, em 2013, o chefe da quadrilha cumpria pena em regime semiaberto na cidade de Juiz de Fora. A progressão do regime veio em decorrência de uma sentença da Justiça Federal de Ribeirão Preto (SP) baseada em um contrato com a empresa Terra Imóveis Ltda., que tinha como sócio um outro denunciado pelo órgão.

O sócio da empresa, ainda conforme a denúncia, seria na verdade o responsável financeiro pelos negócios da quadrilha, incluindo compra e venda de veículos e imóveis para "limpar" o dinheiro adquirido nos crimes.

A organização criminosa era estruturada de forma ordenada, com várias células, onde "cada qual possuía função devidamente delineada". O fornecimento da droga era feito principalmente por outro boliviano, apesar de outros fornecedores não terem sido identificados. O dono da fazenda em Iturama era o traficante intermediador, sendo uma espécie de elo entre os fornecedores bolivianos e os compradores brasileiros.

Outros três acusados eram responsáveis pelo transporte aéreo e terrestre da cocaína. Entre eles está Gerson Palermo, um piloto que possui mais de 15 registros por diversos crimes diferentes e participou de um dos crimes mais ousados já praticados no Brasil. Conforme a denúncia do MPF, ele pilotou um Boeing 737-200 da VASP, sequestrado no dia 16/08/2001. O voo ia de Foz do Iguaçu para Curitiba e foi tomado por oito homens armados, que desviaram a aeronave para Porecatu, norte do Paraná, e fugiram com cinco milhões em malotes do Banco do Brasil.

Amigos e parentes tanto do líder da quadrilha como do sócio da empresa, que cuidava da parte financeira, também se envolveram no esquema, seja movimentando bens ou auxiliando no recebimento das aeronaves e ocultação das drogas. Além da esposa e irmã do líder, são denunciados  o cunhado dele e um amigo que administrava a fazenda em Iturama. A filha do sócio e um conhecido dele também foram denunciados.

Um quinto núcleo da organização era composto por três traficantes compradores, incluindo José Almeida Santana, mais conhecido como Pedro Bó. Ele é um dos criminosos mais conhecidos da polícia brasileira por ter sido um dos mentores do assalto ao Banco Central de Fortaleza, em 2005. Ele também foi preso durante a operação Athos.

Por fim, o sexto núcleo era formado por dois doleiros, sendo um brasileiro e outro libanês radicado no estado do Mato Grosso do Sul. Os serviços deles eram utilizados para a compra de dólares e envio de valores ao exterior, assim como para efetuar pagamentos relacionados ao tráfico.