Sem remédio para crise epilética

Fábrica que parou produção de medicamento informa que situação será resolvida até o fim do mês

iG Minas Gerais | Bárbara Ferreira |

Deslocamento. 
Moradora de Contagem, Silênia teve que ir a Betim para comprar remédio para a filha
DENILTON DIAS / O TEMPO
Deslocamento. Moradora de Contagem, Silênia teve que ir a Betim para comprar remédio para a filha

Uma “questão de mercado” prejudica pacientes que dependem de medicamentos à base do princípio ativo clobazam, prescritos para combater crises epiléticas. Essa foi a justificativa do laboratório Sanofi para ter interrompido, há cerca de quatro meses, a fabricação dos remédios Urbanil e Frisium, que estão em falta em drogarias e farmácias públicas – que fornecem medicamentos de gratuitamente.

Questionado pela reportagem de O TEMPO, o laboratório informou que a fabricação já foi retomada e a previsão é a de que “até o fim de março a situação esteja normalizada”. A empresa não deu mais explicações sobre a decisão de parar, temporariamente, a produção dos remédios. A Associação Mineira de Epilepsia denuncia que os medicamentos não estão sendo encontrados, e, por serem de uso contínuo, a interrupção imediata pode causar efeitos colaterais e crises. A dona de casa Silênia Rodrigues Silva, 35, conseguiu adquirir a última caixa de clobazam em uma farmácia da região metropolitana de Belo Horizonte. A filha dela, de 3 anos, tem uma doença neurológica grave e depende do medicamento. “Fiquei sabendo do corte (na produção) do remédio, me desesperei e comecei a telefonar em várias farmácias. Sou moradora de Contagem, mas só encontrei uma caixa em Betim, mas era a última. Mesmo assim, quando cheguei lá, havia uma pessoa esperando em caso de desistência”, conta. A criança tem consulta marcada para este mês, e a mãe está tão preocupada que já pensa em pedir que a médica substitua o remédio. Uma dificuldade relevante é que a troca da droga precisa ser feita aos poucos. “A retirada abrupta do medicamento pode levar à morte. O remédio já está no organismo fazendo a ação anticonvulsivante. Quando é retirado sem acompanhamento médico, a pessoa apresenta a crise. A retirada precisa ser lenta e gradual”, detalha Maria Carolina Doretto, presidente da Associação Mineira de Epilepsia. Especialista em neurociência e com doutorado em epilepsia, ela reforça que o medicamento é o principal para pacientes de difícil controle da doença. São Paulo. A falta do remédio acontece também em outros Estados, como São Paulo, onde Juliana Nunes de Souza, 33, faz o tratamento contra as crises epiléticas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na última consulta, não havia clobazam disponível no Hospital das Clínicas da capital paulista. Ela conseguiu comprar o remédio apenas em Manaus. “Como tomo outros três medicamentos, cheguei a ficar um dia sem a droga. Achei que ficaria tudo bem, mas não. Bastou um dia, e eu tive uma crise. A sorte foi que comprei uma caixa de 20 mg. A minha dosagem é menor, mas corto o comprimido ao meio e continuo tomando”, relata.

Saiba mais Efeito. O clobazam é um medicamento do grupo benzodiazepínico, da família do Valium, com propriedades tranquilizantes como as do diazepam. No entanto, o remédio tem efeito mais duradouro e não pode simplesmente ser substituído de forma drástica, segundo a especialista em epilepsia Maria Carolina Doretto. A troca de medicação, quando necessária, tem que ser feita gradualmente. Uso. Ela explica que 70% das pessoas têm epilepsia de fácil controle e tomam apenas um remédio por dia. Nos outros 30% dos pacientes, a doença tem difícil controle, então o tratamento é mais complexo e associa diversos medicamentos, entre eles o clobazam.

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