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Não aguento mais falar de política, de escândalos e de punições. Nossa política está tão despedaçada quanto a nossa cabeça cultural. São conceitos ralos em nossa rala realidade. A mutação cultural dos últimos anos foi tão forte, a revolução digital foi tão completa no mundo pós-industrial que dissolveu crenças e certezas. Caímos num vácuo de rotas. Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, artistas e pensadores vivem perplexos – não sabem o que filmar, escrever, formular. Em geral, recorrem às atitudes mais comuns nas turbulências: desqualificar os fatos novos e reinventar um “absoluto” qualquer, sem saber que, como escreveu Baudrillard, “não há mais universais; só o singular e o mundial.” Sinto em mim mesmo como é difícil criar sem esperança ou finalidade. Como era gostoso nosso modernismo, os cinemas novos, os movimentos literários, as cozinhas ideológicas. Os criadores se sentiam demiurgos falando para muitos. Agora, na falta das “grandes narrativas” do passado, estamos a idealizar irrelevâncias, como se ali estivessem pistas para novas “verdades” a desvelar – a aura deslizou da obra para o próprio autor –, o único assunto é ele mesmo. Hoje, as palavras que eram nosso muro de arrimo foram esvaziadas de sentido, e ficamos à deriva. Por exemplo, “futuro”. Que quer dizer? Antes, era visto como um lugar a que chegaríamos, um lugar no espaço-tempo, solucionado, harmônico, que nos redimiria da angustia da falta de “sentido”. Agora, no lugar de “futuro”, temos um presente incessante, sem ponto de chegada. Pela influência insopitável do avanço tecnológico da informação, turbinado pelo mercado global, foram se afastando do grande público as criações artísticas e literárias, as ideias filosóficas, os valores. Em suma, acabou aquela dimensão espiritual chamada antigamente de “cultura” que, ainda que confinada nas elites, transbordava sobre o conjunto da sociedade e nela influía, dando uma razão de ser para a existência. Mais ou menos isso Vargas Llosa escreveu no “El País”, num ensaio chamado “A civilização do espetáculo”. Já houve um tempo em que a literatura era importante. As escolas literárias se digladiavam sobre estilos e temas, em busca de um sentido maior que nos definisse como país, dentro de um mundo ainda analógico. Antes havia debates para ver quem tinha razão. Hoje, todos têm razão, e ai daquele que criticar tendências, em nome de critérios e paradigmas seculares da arte. A inteligência foi substituída pela sacralização da irrelevância massificada; a própria ideia de “estética” é considerada por muitos como um individualismo neoconservador, autoritário, produzindo regras repressivas. A libertação da tutela dos chamados “maîtres à penser”, dos seres que nos guiavam orgulhosamente para algum sentido foi uma coisa boa, mas abriu as portas para um vale-tudo formal que desqualifica tentativas de crítica literária. Claro que é bem-vinda a esfuziante aparição de milhares de criadores, dos blogueiros, dos tuiteiros, dos hipertextos da época pós- pós; claro que algum dia isso vai dar em novos valores de “qualidade”, de “importância”, destilados dos alambiques da internet. Estamos numa fase da exaltação da “quantidade”, como se a profusão de temas e criações substituíssem a velha categoria da “qualidade”. Essa nova era nos ensinou que não chegaremos a algum destino definitivo, mas alguns parâmetros de valor estético terão de ser recolocados na literatura. Em geral, as diagnoses sobre as mutações a que assistimos hoje em dia se dividem ou em lamentos por um passado de ilusões perdidas, ou em euforia por um admirável mundo novo em que todos sejam autores e leitores. Em teoria, tudo bem, mas “ideias” em poesia e literatura só se expressam na forma. Outro dia, achei um livro de Agripino Grieco, um dos grandes polemistas do início do século XX e demolidor dos burros e farsantes. E ele diz, numa entrevista de 1944: “A obra dos escritores vale pela forma em que está vazada, pela ironia, pela irreverência, pelo que possa representar de negação dos valores oficiais. O que vale é a forma.” E ele acrescenta: “Ai do romance em que o enredo interessa mais que o estilo.” Ou seja, os mistérios do mundo revelado pela grande arte literária são florações da forma; e é isso que lhes fornece durabilidade, relevância na observação da vida, sua razão de ser. Nunca tivemos tantos criadores, tanta produção cultural enchendo nossos olhos e ouvidos com uma euforia medíocre, mas autêntica. Há uma grande vitalidade neste cafajestismo poético, enchendo a web de grafites delirantes. Não sei em que isso vai dar, mas o tal “futuro” chegou; grosso, mas chegou. Talvez esse excesso de “irrelevâncias” esteja produzindo um acervo de conceitos “relevantes”, ainda despercebidos. Podemos nos dedicar ao micro, ao parcial, podemos nos arriscar ao erro com mais alegria; mas isso não pode justificar um desprezo pela excelência. E o pior é que as tentativas de “grande arte” são vistas com desconfiança, como atitudes conservadoras, diante da cachoeira de produções que navegam no ar. Ou seja, os mistérios do mundo revelados pela grande arte literária são florações da forma; e é isso que lhes fornece durabilidade, relevância na observação da vida, sua razão de ser. A importância de uma obra reside no grau de decifração da vida de seu tempo, mesmo no túnel sem luz. Se olharmos as grandes obras do passado, como as de Van Eyck, por exemplo, vemos que ali estavam as imagens mais profundas sobre a Idade Média. Isso me lembra o tempo em que achávamos que o “fluxo da consciência”, “the stream of consciousness” ou até o discurso psicótico encerravam uma sabedoria insuspeitada. Será que houve a morte da “importância”? Ou ela seria justamente esta explosão de conteúdos e autores? O “importante” seria agora o quantitativo? Não sei; mas, se tudo é “importante”, nada o é.

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