Os nós na garganta de Leonardo Marques

“Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas” inclui regravação do Clube da Esquina

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Conceito. Enxuto, o álbum de Leonardo Marques concentra apenas nove canções, todas autorais
lfqr/divulgação
Conceito. Enxuto, o álbum de Leonardo Marques concentra apenas nove canções, todas autorais

Dando continuidade à safra de canções talhadas em cima de letras inspiradas, o multi-instrumentista e produtor Leonardo Marques, integrante da banda Transmissor, traça seu segundo álbum solo como se ainda desaguasse a solidão do antecessor, “Dia e Noite No Mesmo Céu” (LFQR, 2012) – mas agora com feeling duro ao invés da alma bucólica. “Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas” (LFQR) carrega uma aura oscilante entre a perspectiva e a desesperança; só que com menos romance e mais densidade. O álbum foi inteiramente gravado de forma analógica, no estúdio Bunker, no Vale do Sol, em Nova Lima – todo construído e idealizado pelo técnico Anderson Rocha, a partir de um console inglês SC6000 e um gravador ATR-80 24 de duas polegadas. Da mesma forma que seu primeiro disco solo, a segunda empreitada de Leonardo Marques teve todos os instrumentos gravados por ele, incluindo piano, violão, banjo, guitarra, baixo, mellotron, optigan, chamberlin, casiotone, tonebank, guitarra barítona e percussão. Apenas a bateria ficou a cargo de Pedro Hamdan. “Acho que principalmente a bateria e baixo, nesse pacote analógico, deram mais peso a sonoridade que eu queria”, avalia o músico. Uma característica especial de “Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas” é o vocal do cantor e compositor mineiro. Já conhecida a sua sutileza do Transmissor, agora ele praticamente sussurra todas as nove canções do disco novo. E não importa se está debruçado sobre a sombria solidão em faixas como “Alvarado” (“secou o jeito de te ver / secou o que senti”), ou na pueril “Brilliant Blue”, única música do álbum em inglês. Apesar de variar entre êxtase e tédio, o disco começa alto. A balada de abertura “Se Um Chão Dá Um Nó” (“se a cabeça é um lugar / sai da cabeça pra buscar o que? por quê?) carrega aquele violão displicente característico do compositor americano Beck. O mesmo acontece com “Ele Só Vai a Pé”, que, a exemplo da primeira faixa, traz uma melodia inspiradora abarcada agora pelo teclado, característica inerente a todas as canções solares do disco, que não à toa são apresentadas ao lado de letras instigantes e mais maduras de Leonardo Marques (“meio sem querer / deixou transparecer / da boca dá pra ver / que não se esconde mais”). Outro destaque do álbum é uma regravação da emblemática “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972), do Clube da Esquina. O músico já havia flertado com Milton Nascimento e companhia ao regravar “Nada Será Como Antes” (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos, 1974), no álbum “Nacional” (2011), do Transmissor. Dessa vez, ao invés de repaginar o clássico dos conterrâneos, Leonardo Marques optou por criar uma nuvem contemporânea em “Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo”, abusando principalmente do mellotron, mas sem se desviar do arranjo original – mantendo inclusive a parte instrumental final da música. Entre altos e baixos saudáveis, “Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas” expõe um Leonardo Marques mais pesado e cru, mas que dá conta de voar alto sem perder o fôlego.

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