'Ainda não surgiu um novo talento no basquete feminino'

Hortência Ex-jogadora de basquete

iG Minas Gerais | Bruno Trindade |

“Fui diretora do basquete feminino da CBB. Saí porque não consegui mudar nada.”
LEO FONTES / O TEMPO
“Fui diretora do basquete feminino da CBB. Saí porque não consegui mudar nada.”

Considerada a Rainha do basquete brasileiro, Hortência não vê uma preparação adequada para os Jogos do Rio, afirma que é preciso começar de novo o basquete feminino, com um projeto de 10 anos, e critica a falta de um programa para buscar novos talentos

Como você avalia a preparação dos atletas do time Nissan, do qual é mentora, em relação aos outros atletas brasileiros para a Olimpíada?

Os atletas, as federações, as confederações, os clubes, eles se preocupam apenas com as partes física, tática e técnica. Mas existem outras coisas que precisam ser trabalhadas, como os cuidados que o atleta deve ter quando ele vai dirigindo para casa, saber lidar com problemas familiares, com problemas financeiros. Às vezes, o esportista tem que encarar as consequências de uma entrevista mal dada, uma foto que coloca na rede social e recebe críticas, ou elogios demais, o equilíbrio emocional. Enfim, neste projeto da Nissan, a gente procura orientar os atletas para que eles tenham essa preparação. Eu não vejo na preparação dos outros atletas brasileiros uma orientação tão bacana como está sendo feita com o time Nissan.

Você chegou a fazer parte da Confederação Brasileira de Basquete. Como foi o trabalho lá?

Eu fui diretora do basquete feminino. Fiquei três anos e saí, porque não consegui mudar nada, não consegui fazer o planejamento que eu acho que deveria fazer. Para não entrar em atrito, resolvi sair.

Você disse que não conseguiu fazer aquilo que queria quando era diretora da seleção. Se você tivesse essa autonomia para mudar as coisas, o que poderia ser feito?

Não é uma resposta fácil de te dar, porque teria que começar tudo de novo. É um projeto de médio a longo prazo, no qual você tem que começar a trabalhar para 2026, bem lá na frente. E não para a Olimpíada de 2016. É um projeto para daqui dez anos. Mas tem que começar forte, investir muito na base, colocar essas meninas da base para viajar muito, conhecer as outras escolas. Existem as escolas europeia, asiática e americana de basquete, e nossas crianças têm que conhecer essas escolas. As meninas da base têm que conhecer as rivais para quando começar um campeonato mundial sub-15, sub-17 e sub-19, elas não se sentirem intimidadas, pois já conhecerão a forma como as adversárias jogam.

Qual é a sua função na Liga de Basquete Feminino?

Na verdade, sou apenas uma consultora da Liga, porque como tenho contrato com a TV Globo, eu não posso fazer gestão da modalidade que eu vou comentar. Mas eu estou sempre no meio do basquete. Eles perguntam a minha opinião. Eu não estou trabalhando na Liga. Só ajudo, sou uma apaixonada pela modalidade e quero usar todo o meu conhecimento para ajudá-los.

Você acha que a Liga de Basquete Feminino está evoluindo?

Está evoluindo a cada dia. Nós começamos com poucas equipes. No ano passado, eram oito. Neste ano, já estamos com dez equipes. Então, acho que está tendo uma evolução. Apesar de os resultados das seleções brasileiras não serem muito bons do lado feminino, a gente está conseguindo um resultado bem bacana e tem conseguido atrair patrocinadores.

Quando os resultados desta evolução irão começar a aparecer na seleção brasileira de basquete feminino?

Acho que tem que ter um trabalho mais em conjunto para isso acontecer. Tem que ter o clube, as federações, as confederações envolvidas. O Brasil é um país muito grande. Então, em uma liga, quando você manda uma equipe jogar lá no Maranhão, fica muito caro. Mas eu acho que tem que ter gestão. A pessoa querer fazer, querer mudar, não se importar com um projeto de dez anos. Tem que ter o início de um projeto bacana, que não seja interrompido e que vá até o fim.

O que é mais fácil: comentar, gerir o esporte ou atuar?

É bem mais fácil atuar como atleta. Porque aí, você pode fazer algo.

Por que existe uma disparidade entre o basquete masculino, como o NBB, por exemplo, e o basquete feminino?

Existe uma procura maior pelo esporte masculino. Acho que a gente ainda vive num mundo um pouco mais voltado para o masculino. Isso em todos os esportes, no mundo inteiro. Se você for a uma confederação de voleibol, de atletismo, de natação, você vai ver essa realidade. Agora está mudando um pouquinho. Mas, em qualquer modalidade que for ver, é investido muito mais no masculino do que no feminino. No basquete mundial, quando eu estava na Fiba, a gente tinha reuniões na sede falando justamente sobre isso. Queríamos que o investimento na mulher fosse de, no mínimo, 30%. Só que não chega nem perto disso. Ainda tem lugar que nem 5% são investidos na mulher. Então, existe mesmo essa diferença, e nós estamos aqui para mudar esse cenário.

O fato de os atletas do masculino atuarem na NBA ajuda a acentuar essa diferença?

Lá nos Estados Unidos, que é o país da oportunidade, da igualdade, que é o país que luta contra qualquer tipo de preconceito e racismo, você vê essa disparidade. Se comparar o salário de um atleta da NBA com um salário das mulheres da WNBA você vai ver a diferença. Se lá nos Estados Unidos, onde o esporte é tratado de uma maneira muito mais séria, com o esporte na escola, com a estrutura esportiva que existe, com as oportunidades esportivas que são dadas aos alunos e aos atletas, tem essa diferença, em qualquer outro lugar do mundo vai ter isso também.

Você acha que essa falta de investimento atrapalha um desempenho melhor do basquete feminino e o surgimento de atletas de renome, como foi na sua época, da Janete e da Paula?

A minha geração, da Janete e da Paula surgiu (de repente). Surgiu porque surgiu, não foi um trabalho feito para se descobrir um talento. Nós aparecemos. E tivemos sorte de aparecer na mesma geração. E continua não tendo esse trabalho para se descobrir novos talentos. Eu, a Janete, a Paula e a Alessandra paramos de jogar, o tempo passou, e você não vê surgir novos talentos. Existem duas ou três jogadoras sensacionais, a própria Érica é uma grande jogadora, está entre as cinco melhores pivôs do mundo. Mas sozinha não adianta. A minha geração e da Paula só começou a ganhar quando entrou a Janete, a Alessandra e outras meninas para nos ajudar. Então, sozinha é muito difícil. O esporte precisa de talentos, de ídolos, senão acaba.

Quem você citaria, além da Érica, como talento do basquete brasileiro feminino atual?

Você tem a Damires surgindo também, tem outras jogadoras, mas ainda não apareceu (um grande talento).

Qual a avaliação que você faz da seleção de basquete feminina atualmente?

Eu já estive lá dentro, eu sei da luta que elas têm. Não acredito que elas tenham chance de medalha, apesar de estar torcendo muito para que isso aconteça. Acho que o trabalho para essa geração, para essas meninas, para essa Olimpíada do Rio, tinha que ter começado muito antes. Infelizmente, foram interrompidos vários trabalhos. Agora, estou só na torcida. Eu não sei qual o planejamento da nossa seleção. Então, não posso te dizer com propriedade. Eu não estou muito entusiasmada, mas estou torcendo muito por elas, porque acho que elas são grandes guerreiras.

Qual momento você considera como o ponto alto da sua carreira de jogadora?

O que marcou a minha geração foi o Campeonato Mundial (1994), o Pan-Americano (1991) e, depois, a final contra os Estados Unidos (Olimpíada de Atlanta, em 1996). Esses foram os três resultados mais importantes da minha carreira.

Como foi ser chamada duas vezes, em 2002 e 2005, para integrar o Hall da Fama do basquete feminino americano, mesmo sem ter jogado lá?

Eu joguei muito contra os Estados Unidos. Eles me viram jogando. Então, eu me sinto muito honrada por poder participar de um grupo tão seleto de celebridades do esporte e, principalmente, da minha modalidade, de estar ao lado de pessoas tão conhecidas e importantes do mundo do basquete.

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