Testes da nutrigenômica são úteis também contra doenças

Raymond Rodriguez Diretor do departamento de biologia molecular e celular Universidade da Califórnia, EUA

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Arquivo pessoal
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Os nossos genes trazem escritas as nossas características físicas, nossas propensões a doenças e também nossa necessidade específica de nutrientes. Para estudar a interação dos alimentos com os genes surgiu a nutrigenômica, ciência que deverá ditar como serão os tratamentos de saúde no futuro.

As pesquisas do Projeto Genoma descobriram que todos os seres humanos são 99,9% iguais e apenas 0,01% diferentes. Na ciência, essas diferenças são chamadas de SNPs (sigla em inglês para “polimorfismos de nucleotídeos únicos”). Esse pequeno percentual é o responsável por definir aspectos como cor dos olhos, de pele, cor e textura dos cabelos e também a determinação dos riscos de doenças.

Esses estudos abriram as portas para um novo campo da ciência, conhecido como nutrigenômica. A área estuda não só as funções dos genes, mas também suas interações com os alimentos – tanto a forma como a alimentação pode influenciar a atividade dos genes, como o modo com que os genes podem influenciar a necessidade de certos nutrientes em um organismo.

Os principais estudos da nutrigenômica têm sido desenvolvidos no sentido de descobrir de que forma a alimentação da mãe influencia na formação do feto, ainda dentro do útero. Mas, no futuro, a ciência será o padrão nos cuidados médicos.

O TEMPO entrevistou o professor Raymond Rodriguez, da Universidade da Califórnia, nos EUA, que falou um sobre essa nova ciência, quais avanços ela já promoveu e para onde deverá avançar. Abaixo estão os melhores trechos da conversa.

Como a interação entre os genes e os nutrientes levam a doenças nos indivíduos?

A nutrição é uma mistura complexa de componentes com a habilidade de gerar energia, construir tecidos e regular o metabolismo. Tudo isso altera a função dos genes. Essa alteração é alcançada por meio da interação dos nutrientes com enzimas e proteínas reguladoras que agem como fatores de transcrição dos genes. Esse processo, por sua vez, modula a função dos genes.

Pode dar um exemplo desse processo?

O resveratrol, presente nos vinhos tintos, é um excelente exemplo de interação dieta-genes. Ele controla dúzias de chaves mestras biológicas, que controlam as funções de milhares de genes. A rede resultante pode ser saúde e longevidade. Os nutrientes também podem modular as funções dos genes modificando quimicamente o DNA de um gene e/ou as proteínas que “empacotam” os genes nos cromossomos. Isso é chamado de “modificações epigenéticas”.

Como podemos prevenir doenças com base no perfil genético de uma pessoa?

Testes de DNA nutrigenômicos podem ser usados para doenças bem caracterizadas, como a fenilcetonúria (detectada pelo teste do pezinho), galactosemia (concentração elevada de galactose no sangue), hemocromatose (depósito de ferro nos tecidos) e intolerâncias a álcool e lactose. Na verdade, isso já faz parte da rotina de testes em recém nascidos para identificar erros de metabolismo. Uma vez que o fator de risco genético foi identificado, são necessárias intervenções nutricionais. Mas para doenças complexas, como a obesidade, o diabetes Tipo 2, doença cardiovascular e síndrome metabólica, os testes nutrigenômicos trazem poucos benefícios. Isso porque essas doenças são o resultado de milhares de genes que funcionam em grandes redes genéticas. Cada um deles dá pequenas contribuições para a doença. Então, alterar a função de um gene em uma rede de centenas ou milhares de genes tem pouco impacto sobre a doença.

Como são vistas as tentativas de usar os testes nutrigenômicos na clínica médica?

A indústria da genômica nutricional tentou usar SNPs para prever riscos de doenças e traçar recomendações dietéticas. Esses testes genéticos diretos para o consumidor têm recebido uma fiscalização crescente do governo nos últimos anos, e muitas empresas saíram do ramo ou mudaram suas premissas. No fim das contas, o que importa é que você não precisa ter seu DNA testado para usar uma alimentação e uma suplementação alimentar sólidas e baseadas em evidências científicas para melhorar sua saúde e reduzir o risco de doenças.

Quantos genótipos relacionados a doenças já foram identificados até o momento?

Cerca de 7.000 genes foram identificados ou como causadores de doenças ou como importantes fatores para aumentar seus riscos. Algumas das doenças relacionadas somente a um gene são doença de Hutington (provoca degeneração progressiva das células do cérebro), síndrome do X frágil (causa debilidades intelectuais, problemas de aprendizado e de comportamento) e cânceres como retinoblastoma.

Já é comprovada a eficácia de uma dieta realizada com base em um teste de DNA?

Os testes de nutrigenômica passaram por um escrutínio intenso da Food and Drug Administration dos Estados Unidos (órgão norte-americano que regula alimentos e medicamentos) e da Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês). O maior desafio dos testes nutrigenômicos é que as associações entre os SNPs e as necessidades nutricionais são muito fracas e altamente influenciadas por fatores ambientais, além da nutrição. Não há uma conclusão clínica definitiva que diga ao consumidor que a recomendação dietética está funcionando. Além disso, a FDA e a FTC estão fiscalizando empresas que tentam relacionar o resultado de um teste nutrigenômico a uma doença em particular.

Qual o principal problema com esses testes?

Uma das maiores reclamações sobre os testes nutrigenômicos é a falta de acompanhamento. É necessário um nutricionista registrado muito experiente no assunto disponível no telefone ou online para explicar os resultados dos testes e a intervenção dietética recomendada. Isso pode ser caro.

A ciência da nutrigenômica se tornará a regra e parte da medicina e da nutrição convencional?

Sim, a nutrigenômica irá se tornar a regra e o padrão nos cuidados de medicina, mas somente quando as evidências que apoiam as mutações genéticas e as SNPs forem mais fortes. Isso significa que devemos entender melhor as interações dieta-genes, o papel das redes genéticas na saúde e nas doenças, e o papel da epigenética na alteração da função dos genes. Como os precursores químicos dessas marcas epigenéticas no DNA vêm da dieta, ela será um fator de contribuição importante para esses resultados.

O que ainda falta?

Serão necessários estudos da nutrição humana envolvendo grandes populações para validar qualquer contribuição genética ou epigenética para doenças. O papel do microbioma na modulação da imunidade e de inflamações também é um fator importante que afeta as interações dieta-genes.

Enquanto isso, como podemos proceder para ter uma alimentação adequada e cuidar da saúde?

Meu conselho para atingir e manter uma boa saúde é reduzir as gorduras e os carboidratos refinados (açúcar e farinha branca), além de comer muitos vegetais, frutas e carnes magras. Um regime atento de suplementação também é importante. Acredito que a diversidade nutricional é mais importante do que a densidade nutricional. Pessoalmente, eu tento ter tantas cores no meu prato quanto possível. Por fim, exercícios devem ser incluídos em seu plano nutricional. Caminhar é bom. Uma caminhada de 5 km por dia é ainda melhor.

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